“Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra” (Mt 28,16-20).
Ascensão do Senhor | Solenidade | 7ª Semana da Páscoa | Ano A

A Solenidade da Ascensão do Senhor, à primeira vista pode ser entendida como uma despedida, mas um olhar mais atento nos revela que é na Ascenção do Senhor que Jesus manifesta a plenitude de sua presença. O Senhor sobe aos céus para inaugurar uma nova forma de permanência junto à sua Igreja e que agora reina sobre todas as coisas. Ao passo que entrega aos discípulos a continuidade visível da sua missão no mundo.
O texto sagrado inicia mostrando os onze discípulos dirigindo-se para a Galileia, ao monte que Jesus lhes havia indicado (fc. Mt 28,16). A Galileia possui um valor profundamente simbólico porque foi ali o início da pregação, dos milagres e do chamado dos apóstolos. O Cristo ressuscitado reconduz os discípulos ao lugar do primeiro encontro, porque toda missão nasce da memória do encontro verdadeiro com Deus. Não existe apostolado autêntico sem intimidade anterior com Cristo.
São Gregório Magno, papa e “magno” doutor da Igreja, recorda que os discípulos sobem ao monte porque “as realidades elevadas somente podem ser contempladas pelos que abandonam os apegos terrenos”. Quem deseja compreender os mistérios de Deus precisa permitir que o coração seja elevado acima das paixões desordenadas, dos interesses egoístas e das distrações do mundo.
O Evangelho afirma que, ao verem Jesus, “prostraram-se diante dele; alguns, porém, duvidaram” (fc. Mt 28,17). O texto não esconde a fragilidade humana, mesmo diante do Ressuscitado ainda existe hesitação. Isso revela que a fé cristã não nasce da perfeição emocional dos homens, mas da iniciativa da graça. Cristo não espera discípulos perfeitos para enviá-los, Ele aperfeiçoa aqueles que aceitam o chamado.
Sobre isso, Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, ensina que a dúvida de alguns discípulos serviu para fortalecer a fé futura da Igreja, porque testemunha que a Ressurreição não foi aceita de maneira ingênua ou precipitada. A fé cristã não ignora a luta interior do homem, ela a atravessa e a vence pela presença do próprio Cristo.
Então Jesus declara, “toda autoridade me foi dada no céu e na terra” (fc. Mt 28,18). Aqui está o fundamento da missão da Igreja. O anúncio do Evangelho não se sustenta na força humana, na capacidade política ou no prestígio cultural. A missão nasce da soberania de Cristo. A Ascensão é também a proclamação régia do Senhor glorificado, Aquele que foi humilhado na cruz agora manifesta plenamente sua autoridade universal.
São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “boca de ouro” da Igreja, afirma que Cristo menciona sua autoridade para fortalecer os discípulos diante das perseguições futuras. Eles seriam pequenos diante do mundo, mas enviados por aquele que governa o céu e a terra, assim até hoje a Santa Mãe Igreja não evangeliza apoiada em garantias humanas, ela evangeliza sustentada pela autoridade do Ressuscitado.
Em seguida vem o mandato missionário: “Ide, portanto, e fazei discípulos entre todas as nações” (fc. Mt 28,19). O cristianismo não é uma experiência fechada em si mesma, o encontro verdadeiro com Cristo gera movimento, anúncio, testemunho e missão. O discípulo não foi chamado para conservar a fé apenas para si, mas para transmitir aquilo que recebeu.
É significativo que Jesus não ordene apenas “informar”, mas “fazer discípulos”. O Evangelho não é mera transmissão de conceitos religiosos, trata-se da formação de homens novos, convertidos, obedientes e configurados a Cristo. Por isso o Senhor ordena também o batismo “em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (fc. Mt 28,19), porque a missão da Santa Mãe Igreja é introduzir os homens na própria vida da Trindade.
Santo Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus, observa que o batismo é dado em nome da Trindade porque toda a vida cristã possui origem trinitária: o Pai cria, o Filho redime e o Espírito Santo santifica. Não existe cristianismo reduzido a moralismo ou sentimento religioso, a fé cristã é participação na vida divina.
Cristo encerra com uma promessa que sustenta toda a existência da Igreja, “eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (fc. Mt 28,20). O Senhor sobe aos céus, mas permanece com os seus. Ele permanece na Palavra, nos sacramentos, na Igreja, na Eucaristia e na ação invisível da graça.
São Leão Magno, papa e “Magno” doutor da Igreja, afirma que, na Ascensão, “aquilo que era visível em Cristo passou para os sacramentos da Igreja”. O Senhor retirou sua presença visível para aprofundar sua presença espiritual e sacramental. A Igreja vive da certeza de que nunca caminha sozinha.
A Ascensão do Senhor também nos obriga a levantar os olhos. Em um mundo consumido pelo imediatismo, pela ansiedade e pela obsessão pelas coisas passageiras, Cristo sobe aos céus para recordar ao homem sua verdadeira pátria. O cristão vive no mundo, mas não pertence ao mundo, pois a nossa esperança não termina nas estruturas temporais da história, ela aponta para o Reino eterno.
Aquele que ascende aos céus continua chamando homens frágeis para anunciar sua verdade. Continua enviando discípulos imperfeitos para testemunhar sua glória. Continua sustentando sua Igreja mesmo em meio às crises, perseguições e fraquezas humanas. A Ascensão não é o fim da obra de Cristo. É o início da missão da Igreja sob a promessa da presença permanente do Senhor glorificado.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.



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