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No domingo, ame os sacerdotes

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“A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita” (Mt 9,36-10,8).

11º Domingo do Tempo Comum | Ano A

O Evangelho deste domingo começa com o olhar de Cristo sobre a multidão. Antes de chamar os Doze, antes de enviá-los, antes de lhes conceder autoridade para curar os enfermos e expulsar os espíritos impuros, Jesus contempla um povo cansado, disperso e ferido pela ausência de verdadeiros pastores. A escolha dos apóstolos não nasce de uma estratégia humana de organização religiosa, mas da compaixão do próprio Deus. Cristo vê o abandono das ovelhas e responde chamando homens concretos, com nome, história, limites e missão. Por isso, a devoção aos Doze Apóstolos não pode desaparecer da vida cristã como se fosse apenas uma lembrança piedosa dos primeiros tempos da Santa Igreja. Eles são os primeiros enviados, as colunas visíveis sobre as quais o Senhor quis lançar os fundamentos de sua Santa Igreja, e a memória deles nos recorda que a fé que professamos não nasceu de uma ideia abstrata, mas de um chamado, de um envio e de um testemunho sustentado pela graça.

São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “boca de ouro” da Igreja, ao comentar esta passagem, observa que Cristo não apenas chama o ministério apostólico de colheita, mas também fortalece os trabalhadores para a missão. O Senhor não envia homens vazios, entregues somente às próprias capacidades, mas lhes concede autoridade para servir a obra que não pertence a eles. Essa observação é importante porque nos impede de olhar para os apóstolos como simples líderes religiosos do passado. Eles foram instrumentos escolhidos por Cristo para levar ao mundo aquilo que receberam de Cristo. A autoridade apostólica não se explica pela grandeza natural de Pedro, André, Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Tomé, Mateus, Tiago de Alfeu, Tadeu, Simão e Judas Iscariotes. Explica-se pela iniciativa daquele que os chamou e os enviou. A devoção aos Doze, portanto, é uma forma de permanecer unido à origem visível da missão da Santa Igreja, reconhecendo que a fé chegou até nós porque Cristo quis servir-se de homens para anunciar, santificar e conduzir o seu povo. 

O próprio Evangelho faz questão de nomeá-los, nenhum deles aparece como figura genérica. Cada nome traz consigo uma história e, ao mesmo tempo, uma advertência. Pedro será confirmado na missão, mas também conhecerá a própria fraqueza. Tomé duvidará, mas confessará o Senhor ressuscitado. Mateus carregará a memória de sua antiga vida de publicano, sem esconder que a graça o retirou de onde estava. Judas será lembrado como aquele que traiu, mostrando que a proximidade exterior com as coisas santas não dispensa a conversão interior. Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, ao tratar da escolha dos apóstolos, recorda que Cristo elegeu homens humildes, sem prestígio mundano e sem glória humana, para que ficasse claro que tudo o que realizassem de grande seria obra de Deus neles. A Santa Mãe Igreja não nasceu sustentada por homens impecáveis, mas por homens alcançados, transformados e enviados. Por isso, venerar os apóstolos não significa idealizá-los como personagens distantes, mas reconhecer neles a força da graça que sustenta a fragilidade humana quando ela se deixa conduzir por Cristo.

Essa memória apostólica precisa ser mantida na vida devocional dos fiéis. Rezar aos santos apóstolos, celebrar suas festas, conhecer seus nomes, pedir sua intercessão e professar com consciência a fé apostólica são formas de proteger a alma contra uma fé sem raízes. A Santa Mãe Igreja não é uma invenção de cada geração, como afirma São Paulo, que recebemos foi transmitido (c.f. I Cor 11,23). O que professamos atravessou séculos de martírio, pregação, sacramentos e fidelidade. Santo Inácio de Antioquia, o Teóforo, ainda nos primeiros tempos do cristianismo, insistia na comunhão com o bispo, com os presbíteros e com os diáconos, ligando essa ordem visível da Santa Igreja à própria estrutura apostólica. Essa consciência antiga nos ajuda a compreender que a devoção aos Doze não é uma saudade do passado, mas uma escola de permanência. Quem ama a Santa Mãe Igreja não despreza os seus fundamentos e quem deseja permanecer fiel a Cristo deve conservar amor por aqueles que primeiro foram enviados por Ele.

Depois de contemplar a multidão sem pastor, Jesus diz aos discípulos, “a messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita” (Mt 9,37-38). Antes de enviar, Cristo manda rezar, assim antes de multiplicar os ministros, ensina a pedir ao Pai que os envie. São Jerônimo, doutro da Igreja e um dos quatro grandes Padres da Igreja Latina, interpreta a grande messe como a multidão dos povos e a escassez de trabalhadores como a falta de instrutores. Essa leitura permanece atual, não faltam multidões cansadas, não faltam almas abatidas, famílias confusas, jovens feridos, pecadores que desejam voltar e fiéis que precisam ser confirmados na fé. O que não podemos deixar faltar é a oração para que Deus dê à sua Santa Igreja sacerdotes santos, homens que não tratem o altar como profissão, a pregação como discurso vazio ou o povo como peso administrativo, mas que assumam a própria vida como serviço entregue ao Senhor da messe.

Rezar por sacerdotes santos é uma obrigação de amor. Muitas vezes, nós, os fiéis cobram dos padres firmeza, disponibilidade, zelo, paciência, doutrina segura, vida de oração e caridade pastoral. Tudo isso é justo e necessário, mas não pode ser pedido sem que, também nós, a Igreja os sustente pela oração. O sacerdote carrega nos ombros realidades que a maioria dos homens não vê, ele entra em contato com pecados, dores, mortes, enfermidades, crises familiares, perdas de fé e feridas espirituais que não aparecem diante da comunidade. Ao mesmo tempo, precisa conservar a própria alma diante de Deus, sem permitir que a rotina endureça o coração. São Gregório Magno, papa e “magno” doutor da Igreja, na Regra Pastoral, ensina que aquele que assume o cuidado das almas deve buscar pureza interior, pois a mão que pretende limpar as feridas dos outros não deve estar manchada pelo mesmo lodo que deseja remover. Essa imagem é forte, mas necessária. O povo precisa de sacerdotes santos porque precisa de mãos limpas para tocar suas feridas, de vozes fiéis para ensinar a verdade e de corações configurados ao Bom Pastor. 

Santo Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus, recorda que o sacramento da Ordem se ordena de modo particular à Eucaristia. O sacerdote existe para servir os mistérios de Cristo, sobretudo para oferecer o Santo Sacrifício e conduzir o povo aos sacramentos que curam e alimentam a alma. Por isso, quando rezamos por sacerdotes santos, não rezamos apenas por homens melhores em sua vida privada. Rezamos pela santificação de toda a Santa Igreja. Um padre santo ajuda o povo a amar a Missa, a buscar a confissão, a escutar a Palavra, a fugir do pecado e a desejar o Céu. Um padre negligente, por outro lado, pode ferir muitas almas, não apenas pelo que faz, mas também pelo que deixa de fazer. A santidade sacerdotal não é um enfeite espiritual, é uma necessidade para o rebanho.

No fim da passagem, Jesus diz aos apóstolos, “de graça recebestes, de graça deveis dar” (Mt 10,8). Essa palavra precisa ser guardada no coração de todo ministro de Deus, mas também no coração de todos os fiéis. O sacerdote não é dono da graça, o apóstolo não é dono da missão. A Igreja não é propriedade dos homens, tudo vem de Cristo e deve voltar a Cristo. São Jerônimo observa que o Senhor concede aos apóstolos participação em seus poderes, mas há uma diferença essencial entre quem dá por autoridade própria e quem recebe para servir. Cristo é a fonte, os ministros são instrumentos e quando esquecemos isso, caímos em dois erros opostos, ou transformamos os sacerdotes em ídolos, como se fossem impecáveis, ou os tratamos com desprezo, como se sua missão fosse apenas humana. A fé católica nos pede outro caminho, venerar o ministério, rezar pelo ministro, respeitar a missão e pedir que a santidade corresponda ao dom recebido.

Neste domingo, ao ouvir os nomes dos Doze, peçamos a graça de renovar nossa devoção apostólica. Que São Pedro nos ensine a voltar depois da queda. Que Santo André nos ensine a conduzir outros a Cristo. Que São Tiago e São João nos recordem a coragem do seguimento. Que São Tomé nos conduza da dúvida à adoração. Que São Mateus nos ensine que nenhuma vida está perdida quando Cristo chama. Que todos os apóstolos intercedam pela Santa Igreja, pelos bispos, pelos sacerdotes e por todos aqueles que hoje trabalham na messe do Senhor e que a nossa oração não seja vaga. 

Rezemos pelos padres que conhecemos, pelos que nos confessam, pelos que celebram a Missa, pelos que nos ensinaram a fé, pelos que estão cansados, pelos que foram feridos, pelos que precisam recomeçar e pelos que se preparam para o sacerdócio. A multidão continua cansada e abatida, mas Cristo não deixou seu povo sem cuidado. Ele continua chamando trabalhadores para a colheita. Cabe a nós pedir que sejam muitos, e que sejam santos. 

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.