“Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10,26-33).
12º Domingo do Tempo Comum | Ano A

O Evangelho deste domingo apresenta Cristo preparando seus discípulos para uma missão que não seria recebida sem resistência. Eles anunciariam uma verdade capaz de iluminar os corações, mas também de revelar aquilo que muitos preferiam conservar escondido. Por isso, Jesus não lhes promete uma vida livre de perseguições, perdas ou incompreensões. Em vez de alimentar falsas expectativas, ensina-os a distinguir aquilo que pode ser retirado pelo mundo daquilo que somente Deus pode julgar. O corpo pode ser ferido, os bens podem desaparecer, o prestígio pode ser destruído e as portas podem ser fechadas. A alma, porém, não está submetida ao poder daqueles que ameaçam, ridicularizam ou perseguem. Essa certeza deveria acompanhar todo católico que deseja viver a fé sem escondê-la para preservar a própria tranquilidade.
Talvez nunca tenhamos compreendido tão claramente o valor das coisas materiais quanto os homens de nosso tempo. Aprendemos a produzir mais, construir com maior rapidez, prolongar a vida, atravessar grandes distâncias e colocar uma quantidade incalculável de informações na palma da mão. Essas conquistas possuem valor e podem servir ao bem quando permanecem ordenadas pela inteligência e pela caridade. O problema começa quando o homem, cercado pelas próprias obras, esquece-se dAquele que lhe concedeu inteligência para realizá-las. O mundo moderno multiplicou os instrumentos, mas não conseguiu ensinar para onde a vida deve ser conduzida. Pode oferecer conforto ao corpo, embora continue incapaz de dar repouso à alma. Pode prolongar os dias, mas não pode explicar por que vale a pena vivê-los. Pode cercar uma pessoa de objetos e, ainda assim, deixá-la interiormente vazia.
Abandonar o materialismo não significa desprezar a criação, recusar o trabalho ou considerar pecaminoso todo bem legitimamente adquirido. A fé católica não ensina que a matéria seja má. O Filho de Deus assumiu verdadeiramente a nossa carne e santificou a realidade humana com sua presença. O materialismo surge quando aquilo que deveria servir ao homem passa a governá-lo, quando o dinheiro deixa de ser instrumento e se torna medida de todas as decisões, quando o conforto vale mais do que a consciência e quando a aparência pesa mais do que a verdade. São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “boca de ouro” da Igreja, ensina que a riqueza não é má por natureza, assim como a pobreza não constitui virtude por si mesma. O mal encontra-se no uso desordenado dos bens e no coração que se fecha às necessidades dos outros. Não somos condenados por possuir algo, mas podemos nos perder quando permitimos que as coisas nos possuam.
O materialismo não se revela somente no acúmulo de dinheiro. Ele também aparece no desejo de reconhecimento, na necessidade de exibir uma vida invejável e na incapacidade de aceitar qualquer renúncia. Há pessoas que possuem pouco e vivem consumidas pela vontade de ter. Outras possuem muito, mas conservam liberdade interior e fazem dos próprios bens instrumentos de caridade. A pobreza evangélica começa no coração, embora precise manifestar-se em escolhas concretas. Ela ensina a usar as coisas sem depositar nelas a esperança que pertence a Deus. O homem materialista teme perder porque construiu sua identidade sobre aquilo que pode desaparecer. O cristão aprende a receber com gratidão, administrar com responsabilidade, repartir com generosidade e deixar sem desespero quando Deus permite que algo lhe seja retirado.
Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, comparava o apego às coisas terrenas a uma substância que prende as asas do espírito e impede seu voo. Essa imagem descreve bem uma alma que deseja aproximar-se de Deus, mas continua colada a tudo aquilo que o mundo oferece. Quer rezar, mas não encontra tempo porque todas as horas estão ocupadas pela busca de resultados. Deseja servir, mas teme renunciar a suas comodidades. Reconhece a verdade do Evangelho, porém evita vivê-la quando ela exige perdas. O materialismo dificilmente se apresenta declarando que Deus não existe. Com frequência, ele age de maneira mais discreta. Permite que a pessoa professe a fé com os lábios, desde que organize toda a vida como se Deus não tivesse nenhuma autoridade sobre seus negócios, sua família, sua sexualidade, seu tempo e suas escolhas.
É nesse ponto que as palavras de Cristo adquirem particular urgência, “o que vos digo na escuridão, dizei-o à luz. O que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados” (Mt 10,27). A fé recebida não foi entregue para permanecer escondida em uma região privada da existência. O católico não é chamado a conservar suas convicções apenas dentro da igreja, como se a verdade de Cristo perdesse sua validade diante das exigências da vida cotidiana. Aquilo que ouvimos no Evangelho deve iluminar o modo como trabalhamos, usamos o dinheiro, educamos os filhos, tratamos os mais frágeis, cumprimos nossas obrigações e enfrentamos as pressões do ambiente em que vivemos. Uma fé que não alcança as decisões concretas corre o risco de transformar-se em um hábito religioso incapaz de converter a vida.
Santo Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus, ensina que a felicidade humana não se encontra nos bens exteriores, pois eles são inferiores aos bens do corpo, assim como os bens do corpo são inferiores aos da alma. Dinheiro, propriedades, influência e reconhecimento podem auxiliar algumas atividades desta vida, mas nenhum deles satisfaz a inteligência que busca a verdade nem a vontade criada para amar o Bem eterno. A inquietação de nosso tempo nasce, em grande parte, da tentativa de exigir das coisas aquilo que elas nunca puderam oferecer. Compramos para preencher, exibimos para sermos reconhecidos e acumulamos para nos sentirmos seguros. Depois de algum tempo, descobrimos que o novo envelheceu, a admiração dos outros diminuiu e a segurança prometida não era tão firme quanto parecia. O coração permanece faminto porque foi alimentado com aquilo que não correspondia à grandeza de seu desejo.
Quando compreendemos que os bens deste mundo são passageiros, nós deixamos de medir o valor de nossa vida pelo que possuímos e começamos a examiná-la a partir daquilo que poderá apresentar diante de Deus. São Leão Magno, papa e “Magno” doutor da Igreja, recorda que os bens materiais não nos foram concedidos como propriedades absolutamente encerradas em nossos interesses, mas confiados à nossa administração para o serviço divino. Essa compreensão muda nossa relação com tudo o que recebemos. O dinheiro deixa de ser um muro construído contra os necessitados e passa a ser possibilidade de caridade. A profissão deixa de servir exclusivamente ao enriquecimento e se transforma em lugar de santificação. A autoridade deixa de ser instrumento de vaidade e se torna responsabilidade. Os bens não desaparecem, mas passam a ocupar o lugar correto, abaixo de Deus e a serviço da vida humana.
Cristo também conhece o medo que surge quando a fé precisa ser testemunhada diante dos homens. Muitos católicos não abandonam formalmente a Igreja, mas aprendem a silenciar tudo aquilo que poderia causar desconforto. Escondem os sinais da fé, evitam defender a verdade e procuram adequar suas convicções ao ambiente para não parecerem ultrapassados. O medo de perder aprovação, oportunidades ou prestígio torna-se mais forte do que o desejo de permanecer fiel. São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “boca de ouro” da Igreja, comentando esta passagem, observa que Jesus eleva os discípulos acima daquilo que os homens consideram mais terrível, chegando a ensiná-los a não temer sequer uma morte violenta. Se os primeiros cristãos foram chamados a enfrentar a possibilidade real do martírio, não podemos considerar insuportável o simples desconforto de sermos reconhecidos como católicos.
Mas cabe lembramos que testemunhar a fé não significa transformar toda conversa em disputa ou assumir uma postura agressiva diante de quem pensa de modo diferente. A verdade cristã não precisa da nossa irritação para permanecer verdadeira. O testemunho começa em uma vida coerente, na caridade que não escolhe quem merece ser amado, na honestidade conservada quando a fraude seria vantajosa, na fidelidade matrimonial mantida em meio a uma cultura que normaliza a ruptura e na coragem de rejeitar aquilo que ofende a Deus, ainda que todos ao redor considerem normal. O católico testemunha quando não se envergonha de rezar, participa da Santa Missa, busca o sacramento da confissão, respeita os mandamentos e permite que sua fé seja percebida não pela arrogância de seus discursos, mas pela firmeza serena de suas escolhas.
Isso não significa que devamos esconder a palavra sob o pretexto de testemunhar somente com ações. Cristo ordenou que seus discípulos falassem à luz e proclamassem dos telhados. Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e se transforma em omissão. Precisamos saber explicar aquilo em que cremos, defender a dignidade da vida humana, ensinar a verdade aos filhos e responder com clareza quando a fé é reduzida a caricaturas. Santo Tomás de Aquino inclui a confissão exterior da fé entre os atos exigidos pela Lei Nova. Nem sempre é necessário falar, mas existem ocasiões em que calar equivale a permitir que a mentira seja recebida como verdade. A caridade não nos autoriza a enganar ninguém sobre aquilo que Deus revelou. Ela exige que a verdade seja dita no momento adequado, com reta intenção e sem desprezo pela pessoa que a escuta.
O Senhor, contudo, não deixa os discípulos entregues somente à própria coragem. Depois de lhes falar sobre perseguição e morte, recorda que “nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados” (Mt 10,29b-30). A confiança na Providência liberta o homem da escravidão das coisas porque lhe mostra que sua segurança última não depende da quantidade de bens acumulados. Deus não promete que nada será perdido. Promete que nenhuma perda ficará fora de seu olhar. Não afirma que seus filhos nunca sofrerão, mas garante que o sofrimento não será capaz de arrancá-los de suas mãos. O católico que acredita verdadeiramente na Providência pode trabalhar, planejar e administrar seus bens sem transformá-los em ídolos, pois sabe que o Pai continua presente quando todas as seguranças humanas falham.
“Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus” (Mt 10,32). Esta promessa deveria ser suficiente para reorganizar nossas prioridades. Um dia, tudo aquilo que hoje disputamos será deixado para trás. As casas terão outros moradores, os cargos serão ocupados por outras pessoas, as roupas perderão o valor e os aplausos serão esquecidos. Restará a verdade de nossa resposta a Cristo. Nesse dia, não importará quantas coisas fomos capazes de reunir, mas se permitimos que elas nos afastassem de Deus ou as transformamos em instrumentos para amá-lo. Não importará a imagem que construímos diante do mundo, mas se tivemos coragem de viver como católicos quando a fidelidade exigiu renúncia.
O Evangelho deste domingo nos convida a examinar aquilo que tem governado nossas escolhas. Talvez afirmemos confiar em Deus enquanto toda a nossa paz depende de uma conta bancária, de uma posição social ou da aprovação dos outros. Talvez professemos a fé aos domingos, mas passemos o restante da semana tentando esconder qualquer sinal de que pertencemos a Cristo. É necessário recuperar a liberdade dos filhos de Deus, que usam os bens sem adorá-los e convivem com o mundo sem assumir sua forma de pensar. O Senhor não nos pede uma fé decorativa, guardada para os momentos em que ela não custa nada.
Que o medo de perder as coisas não nos faça perder a eternidade. Que a vontade de agradar aos homens não nos leve a negar Aquele que morreu por nós. E que, ao olhar para nossa vida, o mundo encontre algo que não possa explicar por seus próprios critérios, que encontre homens que trabalham sem fazer do dinheiro o seu senhor, que possuem sem se tornarem escravos, que renunciam sem amargura e que professam a fé com a coragem tranquila de quem sabe em quem depositou sua esperança.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.



Você precisa fazer login para comentar.