“Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim” (Mt 11,25-30).
14º Domingo do Tempo Comum | Ano A

O evangelho desse domingo inicia com um convite que inicialmente parece contraditório, “tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim” (Mt 11,29a), pode parecer estranho que Cristo ofereça descanso entregando um jugo. Quando estamos cansados, desejamos retirar todo peso, abandonar qualquer compromisso e viver sem nada que limite nossas vontades. Contudo, o Senhor conhece o coração humano melhor do que nós mesmos. Sabe que a verdadeira liberdade não consiste em viver sem nenhuma responsabilidade, sem obediência ou sem direção. O homem sempre entrega sua vida a alguma coisa. Quando se recusa a servir a Deus, acaba servindo ao dinheiro, à opinião dos outros, ao prazer, ao sucesso, ao medo, às próprias paixões ou à necessidade de controlar tudo. A questão não é se carregaremos um jugo, mas qual jugo aceitaremos carregar.
O mundo costuma apresentar seu fardo como liberdade. Diz que ser livre é não permitir que ninguém estabeleça limites para nossos desejos, seguir apenas aquilo que sentimos e evitar qualquer compromisso que exija renúncia. No início, essa proposta parece leve. Não há mandamentos, não há sacrifícios e não há uma verdade diante da qual precisamos nos corrigir. Com o passar do tempo, porém, aquilo que parecia liberdade começa a cobrar seu preço. A busca por aprovação transforma-se em ansiedade. O desejo de possuir torna-se medo de perder. A procura pelo prazer termina em dependência. A recusa de compromissos produz solidão. A necessidade de demonstrar felicidade faz com que muitas pessoas escondam o próprio vazio atrás de uma vida cuidadosamente exposta.
O fardo do mundo é pesado porque nunca permite que o homem descanse. Sempre falta alguma coisa. É necessário produzir mais, ganhar mais, aparecer mais, provar mais e conquistar uma nova posição antes que alguém ocupe nosso lugar. O mundo promete descanso depois da próxima vitória, mas imediatamente cria uma nova exigência. Mesmo quando o corpo para, a alma continua inquieta, calculando o que ainda precisa alcançar para sentir-se segura. Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, conheceu esse caminho antes de sua conversão. Procurou respostas no prestígio, nos prazeres, nas doutrinas humanas e em sua própria inteligência. Depois compreendeu que o coração foi criado para Deus e permanece inquieto enquanto não repousa nele.
Essa inquietação não é eliminada apenas pela diminuição das atividades. Há pessoas que possuem tempo livre, mas não encontram paz. Outras vivem cercadas de conforto, embora permaneçam interiormente cansadas. O descanso prometido por Cristo não é simples ausência de trabalho. Ele nasce quando a vida volta à sua ordem correta, quando Deus ocupa o primeiro lugar e todas as outras coisas deixam de exigir de nós aquilo que somente Ele pode oferecer. O coração começa a descansar quando não precisa mais transformar o dinheiro em segurança absoluta, o reconhecimento em identidade ou o prazer em finalidade da existência.
Por isso, Jesus não diz apenas, “vinde a mim”. Ele acrescenta, “aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). A intimidade com Deus começa quando aceitamos aprender com Cristo, e não apenas procurar sua ajuda nos momentos em que nossos próprios planos fracassam. Muitos desejam o descanso de Jesus, mas não querem sua mansidão. Pedem que Deus retire os pesos, embora não permitam que Ele toque nas escolhas que os produziram.
São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “boca de ouro” da Igreja, comentando essa passagem, recorda que não devemos ter medo quando ouvimos a palavra “jugo”, porque o próprio Cristo declara que ele é suave, nem devemos fugir quando ouvimos falar de um fardo, porque sua carga é leve. Isso não significa que a vida cristã esteja livre de cruzes. Seguir o Evangelho exige renúncia, combate contra o pecado, fidelidade nos momentos difíceis e perseverança quando não sentimos nenhuma consolação. O jugo torna-se suave porque não é carregado longe de Cristo. O Senhor não permanece à distância observando nosso esforço. Ele caminha conosco e concede a graça necessária para aquilo que nos pede.
Santo Ambrósio, bispo e um dos quatro grandes doutores latinos da Igreja, ensina que o jugo do Senhor é recebido pelos mansos e humildes, não como uma submissão degradante, mas como uma sujeição que conduz à verdadeira dignidade. O mundo costuma considerar liberdade a possibilidade de fazer tudo o que se deseja. A fé nos mostra que livre é aquele que consegue escolher o bem mesmo quando suas paixões o conduzem em outra direção. Um homem dominado pela raiva não é livre apenas porque pode ferir quem o contrariou. Aquele que não consegue controlar seus desejos não se torna livre por satisfazê-los. A liberdade cresce quando a vontade é curada e aprende a desejar aquilo que corresponde ao bem para o qual foi criada.
Escolher o jugo de Cristo também significa construir intimidade com Ele. Não basta conhecer informações sobre Deus, repetir fórmulas religiosas ou manter uma prática exterior sem permitir que o Senhor alcance o interior da vida. Santa Teresa d’Ávila, doutora da “oração” da Igreja, descreve a oração como uma relação de amizade, um encontro frequente e pessoal com aquele por quem sabemos que somos amados. Essa amizade não nasce de contatos ocasionais. Assim como toda intimidade verdadeira, ela exige presença, escuta, sinceridade e tempo compartilhado.
A intimidade com Deus não é construída apenas por sentimentos agradáveis. Haverá dias em que a oração parecerá simples e consoladora. Em outros, será necessário permanecer diante do Senhor sem experimentar qualquer entusiasmo. O amor se torna mais verdadeiro quando não depende exclusivamente daquilo que sentimos. Quem aceita o jugo de Cristo aprende a rezar não somente quando precisa de uma resposta imediata, mas porque reconhece que estar com Deus já é um bem. Aos poucos, a oração deixa de ser uma tarefa encaixada no restante da vida e se torna o lugar a partir do qual toda a vida é compreendida.
Essa proximidade com Deus também nos ensina a reconhecer quais pesos não foram colocados por Ele. Muitas pessoas carregam culpas que já foram perdoadas, responsabilidades que pertencem aos outros, expectativas impossíveis e a obrigação de corresponder à imagem que criaram diante do mundo. Cristo não nos pede que sustentemos tudo. A humildade também consiste em admitir que somos criaturas, que possuímos limites e que não temos o controle de todas as coisas. Há uma forma de cansaço que nasce do trabalho fiel, mas existe outra que surge da tentativa de ocupar o lugar de Deus.
No entanto não podemos confundir o descanso prometido por Jesus com uma vida acomodada. O próprio Cristo, manso e humilde de coração, caminhou em direção à cruz. Os santos que aceitaram seu jugo não viveram sem sofrimento. Muitos enfrentaram perseguições, enfermidades, incompreensões e longos períodos de provação. São Gregório Nazianzeno, doutor “O Teólogo” da Igreja, observa que o jugo da Nova Lei é leve por causa da esperança e da recompensa que superam os trabalhos desta vida. A leveza cristã não vem da ausência de dificuldades, mas da certeza de que nenhum sacrifício oferecido a Deus é inútil.
O mundo torna até os prazeres pesados porque exige que sejam continuamente renovados. Cristo torna a cruz suportável porque lhe concede um sentido eterno. O mundo oferece satisfações rápidas, mas não permanece conosco quando elas desaparecem. Jesus não promete retirar imediatamente todas as dores, mas entra nelas e impede que sejam vividas sem esperança. Quem caminha com Cristo ainda pode chorar, cansar-se e sentir medo. A diferença é que já não carrega tudo sozinho.
Talvez o maior sinal de nossa escravidão seja a dificuldade de abandonar aquilo que reconhecemos estar nos afastando de Deus. Sabemos que determinada escolha nos esvazia, mas continuamos voltando a ela. Percebemos que certos ambientes enfraquecem nossa fé, embora tenhamos medo de nos afastar. Reconhecemos que precisamos rezar, confessar-nos, perdoar ou mudar de vida, porém adiamos porque o fardo conhecido parece mais seguro do que a liberdade oferecida por Cristo. O povo de Israel, depois de deixar o Egito, chegou a sentir saudade da escravidão quando encontrou as dificuldades do deserto. Também nós podemos preferir correntes familiares a uma liberdade que exige confiança.
O Evangelho deste domingo nos coloca diante de uma escolha. Podemos continuar carregando o peso de provar nosso valor ao mundo, sustentar aparências, servir às próprias paixões e procurar descanso em coisas que sempre exigirão mais. Ou podemos aproximar-nos de Cristo, aprender sua mansidão e permitir que Ele reorganize nossa vida. A liberdade cristã não consiste em caminhar sem jugo, mas em pertencer àquele cujo amor não nos diminui. O mundo nos transforma em escravos enquanto afirma que somos livres. Cristo pede nossa entrega e, justamente por isso, devolve-nos a liberdade.
Que tenhamos coragem de reconhecer os fardos que não vêm de Deus e humildade para abandonar aquilo que já nos tornou cansados demais. Que nossa oração deixe de ser apenas uma procura por soluções e se transforme em amizade com aquele que nos conhece inteiramente. E que, ao escolhermos o jugo de Cristo, descubramos que a verdadeira liberdade não está em viver longe de qualquer senhor, mas em pertencer ao único Senhor que não escraviza seus filhos.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.

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