
Desde quando me entendo por gente e comecei a servir na Igreja, escuto falar sobre a falta de pessoas para servir, poucas pessoas preparadas e um número ainda menor de pessoas realmente disponíveis. Essa falta de operários, no entanto, vai muito além da minha memória ou do tempo que tenho de caminhada na Igreja. O próprio Cristo, ao contemplar as multidões cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor, disse aos discípulos, “a messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a sua messe” (Mt 9,37-38). Portanto, a escassez de servidores não é um problema exclusivamente moderno, embora as circunstâncias atuais possam torná-lo mais visível e mais complexo.
Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer que as formas de organização do serviço eclesial foram se multiplicando ao longo dos séculos. A missão recebida de Cristo permanece a mesma, mas os modos de exercê-la podem se desenvolver conforme as necessidades de cada época. Existem ministérios que pertencem à constituição apostólica e sacramental da Santa Igreja e existem serviços, pastorais, movimentos, associações e métodos de evangelização que surgiram em determinados contextos históricos. Não podemos tratar tudo como se tivesse a mesma origem, o mesmo peso ou a mesma necessidade. O fato de uma estrutura pastoral ser útil não significa que ela tenha existido desde sempre, assim como o fato de ser recente não significa que seja desnecessária. A questão não é apenas saber quando determinada atividade surgiu, mas compreender para que ela existe e a quem ela deve servir.
Quando olhamos para a Igreja primitiva, encontramos uma comunidade ainda profundamente ligada às suas raízes judaicas, que frequentava o Templo e, ao mesmo tempo, reunia-se nas casas para a fração do pão. O livro dos Atos dos Apóstolos afirma que os primeiros cristãos eram perseverantes “no ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” e que frequentavam o Templo, partindo o pão em suas casas (At 2,42.46). À medida que a comunidade crescia, novas necessidades também apareciam. Quando as viúvas dos cristãos de língua grega começaram a ser negligenciadas na distribuição diária, os Apóstolos escolheram sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, para aquele serviço, enquanto eles permaneceriam dedicados à oração e ao ministério da Palavra (cf. At 6,1-7).
Desde o início, portanto, a Igreja precisou organizar os serviços sem perder de vista aquilo que era essencial. Nós permanecemos escondidos durante três séculos devido as perseguições e somente depois começamos a celebrar plenamente a nossa fé. As perseguições variaram conforme as épocas e as regiões, mas nós já celebrávamos a Eucaristia, escutávamos a Palavra, assistíamos aos pobres e vivíamos nossa organização própria muito antes de receber liberdade pública. O Édito de Milão, promulgado no ano de 313, garantiu liberdade de culto e favoreceu a construção de igrejas, mas não criou a Igreja nem deu início à Santa Missa. A Igreja já vivia da Eucaristia porque nasceu do lado aberto de Cristo e recebeu dos Apóstolos aquilo que eles mesmos haviam recebido do Senhor. No século II, São Justino Mártir descreveu a celebração dominical relatando que eram lidos os escritos dos Apóstolos e dos Profetas, que aquele que presidia exortava a comunidade, que todos rezavam, que eram apresentados o pão, o vinho e a água, que o povo respondia “amém”, que a Eucaristia era distribuída aos presentes e levada aos ausentes e que as ofertas eram destinadas aos órfãos, às viúvas, aos doentes, aos presos, aos estrangeiros e a todos os necessitados. Não encontramos ali cada detalhe ritual desenvolvido ao longo dos séculos, mas encontramos claramente a estrutura fundamental que permanece até hoje, a reunião no domingo, a Liturgia da Palavra, a oração comum, a Liturgia Eucarística, a comunhão e a caridade. O próprio Catecismo da Igreja Católica reproduz esse testemunho ao apresentar o desenvolvimento da celebração eucarística (cf. CIC, n. 1345).
Compreender que nem tudo aquilo que vemos atualmente em uma paróquia existiu desde o princípio da Igreja, nos leva a aceitar que muitos movimentos, associações, métodos de formação, equipes e estruturas pastorais são relativamente recentes quando comparados aos dois mil anos da Sagrada Tradição católica. Para os mais jovens, algumas dessas realidades parecem tão normais que se tornam quase indispensáveis à ideia que possuem de Igreja. Entretanto, a Igreja existia antes delas e continuará existindo se um dia elas deixarem de ser necessárias. O Concílio Vaticano II reconhece que há instituições e formas eclesiais sujeitas a mudanças e que podem ser adaptadas às necessidades de cada tempo, sempre em fidelidade à natureza da Igreja e à sua missão (cf. Sacrosanctum Concilium, n. 1).
A novidade, portanto, não deve ser rejeitada apenas porque é nova, mas também não pode ser transformada em tradição apenas porque nos acostumamos com ela. Por isso precisamos refletir com mais seriedade sobre os novos serviços, sobre a quantidade de pessoas que eles exigem e sobre os frutos espirituais que verdadeiramente produzem. Uma paróquia pode possuir muitos grupos e continuar sem formar discípulos. Pode ter agendas lotadas e confessionários vazios. Pode organizar inúmeros eventos e não despertar nas pessoas o desejo de participar da Santa Missa. Pode reunir multidões e não ensinar ninguém a rezar. Pode manter dezenas de estruturas funcionando e não conduzir uma única alma a uma vida mais íntima com Cristo. A atividade, por si mesma, não é sinal de fecundidade espiritual. Nem todo movimento é conversão, nem toda ocupação é missão e nem todo resultado visível corresponde a um fruto eterno.
A Igreja recebeu de Cristo a missão de anunciar o Evangelho, administrar os sacramentos e conduzir os homens à comunhão com Deus. O Catecismo ensina que ela foi enviada como “sacramento universal da salvação” e, obedecendo ao mandato de seu Fundador, esforça-se para anunciar o Evangelho a todos os homens (cf. CIC, n. 849). Ensina também que todos os membros da Igreja participam dessa missão, embora de maneiras diferentes, pois a vocação cristã é, por sua própria natureza, vocação ao apostolado (cf. CIC, n. 863). O decreto conciliar Ad Gentes reafirma que a Igreja é missionária por sua própria natureza e que sua missão continua, ao longo da história, a missão do próprio Cristo. Portanto, todo serviço eclesial precisa ser julgado a partir dessa finalidade. Ele anuncia Cristo, conduz à conversão e coopera para a salvação das almas? Tudo precisa, de algum modo, conduzir a Cristo e encontrar na Eucaristia sua fonte e sua finalidade.
São Paulo ensina que há diversidade de dons, ministérios e modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos, e que a manifestação do Espírito é concedida a cada um para o bem comum (cf. 1Cor 12,4-7). O carisma não é propriedade privada de quem o recebeu. O serviço não existe para realizar emocionalmente o servidor nem para conferir-lhe prestígio dentro da comunidade. Ele existe para a edificação do Corpo de Cristo. Quando um grupo passa a existir principalmente para conservar a si mesmo, defender seu espaço e alimentar sua própria importância, começa a perder a finalidade para a qual deveria ter sido criado.
São João Paulo II deixou um critério direto para a ação pastoral ao afirmar que “todas as iniciativas pastorais devem ser colocadas em relação com a santidade” (Novo Millennio Ineunte, n. 30). Essa frase deveria ser colocada diante de cada planejamento paroquial, de cada reunião, de cada projeto e de cada nova proposta. Esta iniciativa ajudará as pessoas a se tornarem santas? Ajudará a combater o pecado? Formará uma consciência católica? Ensinará a rezar? Conduzirá à confissão, à Eucaristia e à caridade? Ajudará alguém a permanecer fiel à Igreja? Se não conseguimos encontrar nenhuma relação verdadeira entre uma atividade e a santidade, talvez precisemos questionar por que estamos gastando tanto tempo, tantas pessoas e tantos recursos para mantê-la.
Assim evitaremos que a vida da Igreja seja reduzida à lógica de uma associação, de uma reunião de condomínio ou de um grupo de bairro. Evidentemente, a organização é necessária, assim como são necessários planejamento, comunicação, responsabilidade e administração. Contudo, esses instrumentos precisam servir à missão e nunca a substituir. Também precisamos ter cuidado para que a pregação cristã não se transforme em discurso motivacional, em apresentação de técnicas de sucesso pessoal ou em espetáculo repleto de frases de efeito e piadas, mas vazio de doutrina, arrependimento, cruz e vida eterna. A Igreja não existe apenas para fazer com que as pessoas se sintam bem por alguns minutos. Ela existe para anunciar a verdade que salva.
Cristo disse, “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Essa verdade não é apenas uma ideia agradável ou uma interpretação pessoal da vida. A verdade é o próprio Cristo, que declarou, “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Por isso, o verdadeiro resultado de uma pastoral não pode ser medido apenas pela quantidade de pessoas presentes, pelas visualizações de uma publicação, pelo dinheiro arrecadado ou pela repercussão de um evento. Esses números podem possuir alguma utilidade, mas não são o critério definitivo. A pergunta principal continua sendo, quantas pessoas encontraram Cristo, aproximaram-se da verdade e começaram a desejar uma vida nova?
Isso não significa que devamos extinguir pastorais ou desconfiar de todo serviço novo. Significa que precisamos discernir. Antes de criar mais uma atividade, talvez seja necessário perguntar se ela responde a uma verdadeira necessidade espiritual ou apenas ao desejo de fazer alguma coisa diferente. Precisamos perguntar se existem pessoas formadas para realizá-la, se ela estará em comunhão com o pároco e com a Igreja, se duplicará algo que já existe e, sobretudo, se conduzirá as pessoas a Cristo. Novos serviços podem ser dons providenciais do Espírito Santo, mas precisam conservar a humildade de quem sabe que são meios e não fins.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.



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