No domingo, prepare o teu solo

“Um semeador saiu para semear” (Mt 13,1-23).

15º Domingo do Tempo Comum | Ano A

No Evangelho deste domingo, Jesus diante da multidão que se reúne para ouvi-lo, começa a falar sobre um semeador. Existe uma facilidade perigosa de escutar essa parábola pensando apenas nos outros. Recordamos pessoas que rejeitaram a fé, outras que começaram a caminhar na Igreja e depois se afastaram, ou aquelas cuja vida parece sufocada pelas preocupações deste mundo. O Evangelho, porém, não foi proclamado para que classifiquemos os corações alheios. Ele nos obriga a olhar para dentro e reconhecer quais terrenos estamos formando em nós. O mesmo coração pode tornar-se caminho endurecido em alguns momentos, terreno pedregoso em outros e, pouco depois, deixar-se ocupar pelos espinhos. Também pode ser trabalhado pela graça e transformar-se em terra capaz de produzir frutos.

São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “boca de ouro” da Igreja, observa que, no caso da terra material, não se espera que uma estrada se transforme por si mesma em campo fértil ou que uma rocha passe a oferecer profundidade às raízes. Com a alma humana acontece de outro modo. O caminho pode deixar de ser pisado, as pedras podem ser retiradas e os espinhos podem ser arrancados. Se essa mudança fosse impossível, Cristo não lançaria sua semente em todos os terrenos. O semeador continua semeando porque nenhuma dureza precisa ser definitiva e nenhuma esterilidade deve ser aceita como o estado final de uma alma.

A modernidade criou formas de deixar o coração à beira do caminho. Vivemos expostos a um movimento contínuo de informações, opiniões, imagens e estímulos que atravessam nossa atenção antes que qualquer coisa consiga permanecer. O coração vai sendo pisado por tudo aquilo que passa por ele. Escutamos uma leitura na Santa Missa, recebemos uma orientação espiritual ou somos tocados por uma verdade do Evangelho, mas logo outra voz ocupa seu lugar. A Palavra chega aos ouvidos, embora não encontre o recolhimento necessário para descer ao interior. Não foi rejeitada de maneira consciente. Simplesmente não recebeu tempo suficiente para ser acolhida.

O problema desse terreno não está apenas na quantidade de coisas que ouvimos, mas na forma superficial como nos acostumamos a recebê-las. A mente moderna foi treinada para mudar rapidamente de assunto e procurar sempre algo novo. A Palavra de Deus, no entanto, não foi entregue para ser consumida como mais um conteúdo entre tantos outros. Ela precisa ser guardada, meditada e retomada. Algumas frases do Evangelho revelam seu sentido somente depois de permanecerem conosco durante um longo tempo. Quando não suportamos a demora, deixamos a semente exposta sobre a superfície e permitimos que seja levada antes que tenha a oportunidade de penetrar.

Preparar esse terreno exige recuperar o domínio sobre a própria atenção. Não podemos impedir que o mundo fale, mas podemos escolher quais vozes terão acesso permanente ao nosso coração. Há uma diferença entre viver informado e permitir que o interior seja ocupado por tudo o que aparece diante dos olhos. Em muitos dias, a primeira coisa que recebemos ao despertar são as preocupações dos outros, as notícias, as mensagens acumuladas e as imagens de vidas que não são as nossas. Antes mesmo de nos colocarmos diante de Deus, já entregamos a parte mais silenciosa da manhã ao movimento do mundo. Quando finalmente tentamos rezar, encontramos dentro de nós uma multidão que chegou antes.

O terreno pedregoso apresenta outro perigo. Nele, a semente chega a brotar e sua rapidez pode causar a impressão de que haverá uma boa colheita. Falta, porém, profundidade. Quando o sol aparece, a planta não possui raízes capazes de sustentar aquilo que nasceu. Esse terreno se aproxima muito de uma cultura acostumada a confundir intensidade com maturidade. Uma experiência forte, uma pregação comovente ou um momento de consolação podem despertar um desejo sincero de mudança. O problema começa quando imaginamos que esse entusiasmo inicial já seja uma fé enraizada.

As raízes crescem em uma parte da terra que não pode ser vista. Da mesma forma, a vida espiritual amadurece em escolhas discretas, feitas muitas vezes sem qualquer reconhecimento e sem a presença de sentimentos agradáveis. Quem busca apenas a emoção religiosa corre o risco de abandonar a oração quando ela se torna árida, de afastar-se da Igreja quando encontra uma exigência difícil ou de enfraquecer a própria fé quando precisa defendê-la diante de outras pessoas. O sofrimento não destrói uma fé profunda. Ele apenas revela se a raiz conseguiu alcançar uma região do coração que a dificuldade não pode arrancar.

A cultura da rapidez também prejudica esse enraizamento. Queremos compreender imediatamente, vencer em pouco tempo aquilo que se formou durante anos e alcançar uma vida de oração sem atravessar o trabalho cotidiano da perseverança. Quando os resultados não aparecem, procuramos outro método, outra devoção ou uma experiência diferente. A semente é retirada e replantada tantas vezes que nunca permanece no mesmo lugar pelo tempo necessário para criar raízes. O solo do coração precisa de continuidade. A graça age, mas não dispensa nossa decisão de permanecer.

Os espinhos talvez representem o terreno mais próximo de muitas vidas que ainda conservam a fé. Cristo não diz que a Palavra deixou de nascer. Ela germina, começa a crescer e ocupa verdadeiramente um espaço. Ao seu redor, porém, crescem também as preocupações deste mundo e a sedução da riqueza. Os espinhos não atacam a semente de uma única vez. Eles a cercam lentamente, disputam o alimento da terra e retiram a luz necessária para que o fruto amadureça. Quando percebemos, a Palavra continua presente, mas já não determina nossas escolhas.

Nem todas as preocupações são inventadas. Há responsabilidades que precisam ser assumidas, famílias que dependem de nosso cuidado e trabalhos que exigem esforço. O perigo está em permitir que essas realidades ocupem o lugar que pertence a Deus. Aquilo que começou como responsabilidade pode transformar-se em ansiedade, e o legítimo desejo de prover pode tornar-se uma busca interminável por segurança. A pessoa continua rezando, frequenta a Santa Missa e reconhece a verdade do Evangelho, mas organiza toda a vida segundo as exigências do sucesso, do conforto e da aprovação dos outros. A Palavra não foi expulsa. Foi apenas sufocada.

Os espinhos modernos também crescem quando passamos a viver em comparação permanente. Sempre existe alguém que parece possuir uma vida mais organizada, um trabalho mais valorizado, uma família mais feliz ou uma fé mais admirável. Aos poucos, deixamos de cultivar o terreno que Deus nos confiou para observar o campo dos outros. A comparação produz uma insatisfação que não permite agradecer nem reconhecer a maneira concreta pela qual somos chamados à santidade. Enquanto desejamos outra vida, descuidamos daquela em que a semente foi lançada.

Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, ao pregar sobre essa parábola, dirigiu-se aos diferentes terrenos como realidades ainda capazes de mudança. Exortou o coração endurecido a deixar-se revolver, pediu que as pedras fossem retiradas e que os espinhos não sufocassem a semente. Sua palavra mostra que preparar o solo não consiste em esperar passivamente por uma disposição interior perfeita. Existe um trabalho espiritual que precisa ser assumido. A graça nos antecede e nos sustenta, mas deseja encontrar nossa cooperação.

Esse trabalho começa pelo silêncio, não como uma fuga das responsabilidades, mas como recuperação da capacidade de escutar. A terra não recebe melhor a semente porque está cercada de barulho. Também a alma precisa de momentos nos quais nenhuma outra voz dispute sua atenção com Deus. Ler o Evangelho lentamente, permanecer alguns minutos diante de uma passagem e voltar a ela ao longo do dia pode parecer pouco diante da quantidade de coisas que precisamos realizar. Ainda assim, é dessa fidelidade escondida que nasce a profundidade.

São João Crisóstomo ensina que a Palavra deve ser protegida pelo zelo e pela lembrança contínua. Escutar não basta quando a mensagem é abandonada logo depois. Uma frase guardada durante o dia pode iluminar decisões que ainda não conhecíamos no momento da oração. O Evangelho ouvido no domingo precisa acompanhar a semana, entrar em nossas conversas, corrigir uma reação e orientar a forma como tratamos aqueles que vivem conosco. A semente produz fruto quando deixa de ser apenas uma palavra escutada e passa a dar forma à vida.

São Francisco de Sales, bispo e doutor “da mansidão” da Igreja, ensinava que, mesmo entre os trabalhos e compromissos, o cristão pode recolher-se interiormente na presença de Deus. Ele aconselhava a criar no coração um lugar de retirada, ao qual a alma pudesse voltar durante o dia sem abandonar suas obrigações. Essa prática mostra que a preparação do terreno não depende de uma vida distante do mundo. O coração pode permanecer unido a Deus em meio às atividades quando aprende a interromper, ainda que por um instante, o movimento exterior para recordar diante de quem está vivendo.

Esse recolhimento pode acontecer em gestos muito simples. Uma breve oração antes de iniciar um trabalho, a repetição silenciosa de uma palavra das Escrituras ou um momento de gratidão no meio do dia impedem que o interior seja completamente tomado pela pressa. Não se trata de acrescentar um novo peso à rotina, mas de permitir que Deus alcance a rotina que já existe. A vida espiritual enfraquece quando reservamos ao Senhor apenas os poucos espaços que sobram. Ela começa a criar raízes quando sua presença atravessa aquilo que fazemos.

Também precisamos permitir que Deus retire as pedras. Algumas delas são pecados que conservamos porque ainda não decidimos abandoná-los. Outras são ressentimentos, resistências e justificativas que tornam o coração incapaz de aprofundar aquilo que ouve. O sacramento da confissão possui um lugar indispensável nesse cultivo. Nele, não apresentamos a Deus uma terra já preparada, mas permitimos que sua misericórdia toque justamente aquilo que a tornou dura e improdutiva. Uma alma que procura justificar sempre seus próprios erros nunca se deixa arar.

Os espinhos, por sua vez, precisam ser identificados antes que cresçam demais. Nem sempre aquilo que ocupa nosso tempo é mau, mas pode estar ocupando mais espaço do que deveria. É possível que algumas preocupações tenham se tornado maiores porque nunca as colocamos diante da Providência. Pode acontecer também que o desejo de possuir, controlar ou agradar aos outros tenha criado raízes junto da Palavra. O exame de consciência ajuda a perceber o que está disputando em nós o lugar de Deus. Sem essa sinceridade, tentaremos alimentar a semente enquanto continuamos protegendo aquilo que a sufoca.

A terra boa não representa uma alma sem dificuldades. Ela também recebe o sol, enfrenta mudanças e precisa ser cultivada. Sua diferença está em oferecer profundidade e perseverança. Cristo afirma que os frutos aparecem em medidas diferentes: cem, sessenta e trinta por um. São João Crisóstomo destaca que essa diversidade não deve conduzir ao desânimo, pois o Senhor reconhece os frutos produzidos segundo as possibilidades e a fidelidade de cada pessoa. Deus não nos chama a imitar exteriormente a colheita dos outros. Ele espera que o terreno que nos confiou não permaneça estéril.

O Evangelho deste domingo não nos pergunta apenas se ouvimos a Palavra. Pergunta o que acontece com ela depois que a escutamos. Em uma época que endurece o coração pelo excesso de vozes, impede as raízes pela pressa e multiplica os espinhos pela ansiedade, preparar o solo tornou-se uma necessidade diária. Não basta desejar ser terra boa. É preciso proteger o silêncio, criar constância, retirar aquilo que ocupa o interior de maneira desordenada e aceitar o trabalho paciente da graça.

O semeador continua saindo para semear. Ele não se cansa diante de nossas resistências e não abandona o campo porque a colheita ainda não apareceu. Cristo conhece a terra que somos e sabe também aquilo em que ela pode se transformar. Que a Palavra não encontre em nós apenas um lugar de passagem. Que consiga penetrar, criar raízes e permanecer durante o tempo necessário para produzir frutos. E que, ao final, nossa vida revele que a semente recebida não ficou escondida sob a terra, mas cresceu até tornar visível a presença d’Aquele que a lançou.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.

Sem Nome

Por onde andarmos que a justiça nos guie. Para que quando falarmos, a verdade saia de dentro de nós. Diante do sofrimento que sejamos alento e nas dificuldades criemos algo que agrade a Ti. Para a qualquer momento elevarmos Teu Nome e assim partilharmos o amor que nos move a sermos ferramentas confiantes da Tua misericórdia. Amém!

Siga-nos nas redes

Descubra mais sobre Sem Nome

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo