Sobre o legado que permanece de nós

Recentemente, vi uma notícia sobre o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, informando que, em razão de um quadro avançado de Alzheimer, a Justiça havia autorizado a curatela para que seus filhos pudessem cuidar de questões relacionadas à sua vida e ao seu patrimônio. A notícia me chamou atenção não pelo aspecto jurídico em si, pois conheço de perto a necessidade de buscar proteção legal quando alguém que amamos já não possui condições de administrar sozinho a própria vida. O que me fez parar e pensar foi outra coisa, um homem que chegou aos 95 anos, que foi presidente do Brasil por dois mandatos e participou de um momento relevante da história nacional, talvez hoje já não se lembre do Plano Real nem da importância que teve nesse processo. A história brasileira lembrará dele de alguma forma, mas a pergunta que ficou em mim foi outra, quando a memória falha, quando os títulos passam e quando o patrimônio já precisa ser administrado por outros, o que realmente permanece de nós?

Não faço esta reflexão para julgar o legado de um homem, muito menos para diminuir a vida de alguém que já carrega o peso próprio da velhice e da enfermidade. Faço esta reflexão para que olhemos para nós mesmos. A Sagrada Escritura já nos adverte, “vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1,2). Essa palavra não despreza o trabalho, a inteligência, a construção de uma carreira, o cuidado com a família ou a responsabilidade com os bens materiais. Tudo isso pode ser importante. O trabalho é digno, a prudência é necessária, e os bens materiais podem nos ajudar a cuidar de quem amamos, praticar a caridade e até servir melhor a Deus. O problema começa quando aquilo que deveria ser meio se transforma em fim, quando o que deveria servir à nossa salvação passa a ocupar o lugar de Deus.

Cristo nos advertiu com clareza, “que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?” (Mc 8,36). Essa pergunta deveria acompanhar todos os nossos projetos. De que adianta conquistar cargos, títulos, reconhecimento e bens se, no fim, deixarmos para trás uma memória marcada pelo orgulho, pela injustiça, pela frieza, pela ausência de amor ou pela vergonha daqueles que deveriam ter sido mais amados por nós? O Catecismo da Igreja Católica recorda que “a morte é o fim da peregrinação terrestre do homem” e que esta vida é o tempo que Deus nos concede para realizarmos nossa existência segundo o seu projeto (cf. CIC, n. 1013). Portanto, não teremos a eternidade inteira para decidir se queremos viver com Cristo, decidimos isso agora, no modo como amamos, perdoamos, trabalhamos, educamos, servimos, rezamos e tratamos aqueles que Deus colocou em nosso caminho.

Há uma imagem do Evangelho que deveria nos estremecer. No juízo final, Cristo diz aos justos, “vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo” (Mt 25,34). Aos que recusaram o amor concreto, porém, a palavra é terrível, “afastai-vos de mim” (Mt 25,41). Talvez uma das grandes perguntas sobre o nosso legado seja esta, quando já não pudermos explicar nossas intenções, quando não tivermos força para justificar nossas escolhas, quando a própria memória nos abandonar, aquilo que vivemos testemunhará a nosso favor ou contra nós?

São João da Cruz dizia que “no entardecer da vida, seremos julgados pelo amor”. Não seremos julgados pela quantidade de aplausos, pelo tamanho da influência, pela soma dos bens acumulados ou pela importância social que um dia tivemos. Tudo isso pode ter algum valor, mas somente se tiver sido atravessado pelo amor, pela justiça e pela verdade. Santo Agostinho também nos recorda que “fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti”. Buscamos descanso em muitas coisas como dinheiro, reconhecimento, prazer, poder, conquistas e elogios. Mas, quando a vida se aproxima do fim, muita coisa perde a força que parecia ter. O corpo enfraquece, a memória falha, os bens passam para outras mãos, e aquilo que parecia urgente deixa de ter o mesmo peso. O que permanece é o amor que demos, a fé que conservamos, o perdão que oferecemos, a verdade que defendemos e a misericórdia que praticamos.

O Concílio Vaticano II, ao tratar da vocação universal à santidade, recorda que todos os fiéis, em qualquer estado de vida, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade (cf. Lumen Gentium, n. 40). Isso significa que a santidade não é um luxo espiritual para poucos, mas o verdadeiro destino de todos. O pai, a mãe, o professor, o trabalhador, o jovem, o idoso, o sacerdote, o consagrado, o servidor público, todos são chamados a construir a própria vida de modo que ela não termine apenas em currículo, patrimônio ou lembrança social, mas em comunhão com Deus.

Por isso, precisamos pensar seriamente sobre o que estamos deixando. Estamos deixando um legado de fé ou apenas uma coleção de reclamações? Estamos formando pessoas melhores ou ferindo aqueles que caminham ao nosso lado? Estamos ensinando nossas crianças e jovens a olharem para a eternidade ou apenas a vencerem no mundo? Em Provérbios afirma, “a memória do justo é abençoada” (Pr 10,7). Essa memória não nasce de uma vida perfeita, pois ninguém a possui, mas de uma vida que buscou a conversão e não fez do pecado sua morada.

Santa Teresa d’Ávila resumiu bem isso ao dizer que “tudo passa, Deus não muda”. O dinheiro passa, o cargo passa, a juventude passa, a saúde passa, a fama passa, a memória humana passa. Por isso, se queremos viver com Cristo na eternidade, precisamos caminhar com Cristo hoje. Se queremos ser reconhecidos por Ele no último dia, precisamos reconhecê-lo agora nos sacramentos, na oração, na Igreja, no pobre, no doente, no familiar difícil e naquele que depende do nosso cuidado.

Que possamos perguntar com sinceridade, o que ficará de mim quando eu já não puder controlar a narrativa da minha própria vida? O que minha família, meus amigos e todos que comigo convivem lembrarão quando eu já não puder falar por mim mesmo? Mais ainda, o que Cristo encontrará em mim quando eu estiver diante dele? Que a resposta não seja apenas a lembrança de uma carreira, de um patrimônio ou de uma posição social, mas a marca de alguém que, mesmo com quedas e misérias, tentou amar, servir, perdoar, conduzir os seus para Deus e viver como filho da Igreja.

Porque, no fim, o verdadeiro legado não é aquilo que o mundo registra, mas aquilo que Deus reconhece. E se um dia até a nossa memória nos faltar, que aqueles que se lembrarem de nós não sintam vergonha, ódio ou desprezo, mas possam reconhecer que houve ali uma vida que, com limites e imperfeições, buscou a Cristo. Que, acima de tudo, quando chegar o nosso entardecer, possamos ouvir do Senhor não a palavra do afastamento, mas o convite da misericórdia, “vinde, benditos de meu Pai” (Mt 25,34).

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.

Sem Nome

Por onde andarmos que a justiça nos guie. Para que quando falarmos, a verdade saia de dentro de nós. Diante do sofrimento que sejamos alento e nas dificuldades criemos algo que agrade a Ti. Para a qualquer momento elevarmos Teu Nome e assim partilharmos o amor que nos move a sermos ferramentas confiantes da Tua misericórdia. Amém!

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