No domingo, aprenda a viver como trigo

“Deixai crescer um e outro até a colheita!” (Mt 13,24-43).

16º Domingo do Tempo Comum | Ano A

A parábola deste domingo não nos foi entregue para que passemos a vida procurando o joio nos outros. É mais fácil reconhecer a incoerência alheia do que perceber aquilo que cresce silenciosamente dentro de nós. Jesus fala de uma plantação na qual o trigo e o joio permanecem próximos, semelhantes durante parte do crescimento, até que o fruto revele a diferença. Essa proximidade deveria nos colocar em estado de vigilância, porque também podemos construir uma imagem cristã, conservar práticas religiosas e permitir que escolhas contrárias ao Evangelho ocupem o coração.

O perigo espiritual começa quando confundimos pertencimento com conversão. Podemos estar dentro da Igreja, conhecer as respostas da fé, participar das celebrações e manter devoções sinceras, mas nada disso nos autoriza a concluir que já somos o trigo recolhido no celeiro. A vida cristã não é confirmada pela imagem que fazemos de nós mesmos, mas se Cristo encontra obediência naquilo que fazemos quando ninguém está olhando.

Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, advertia que há trigo e joio entre os leigos e nos lugares mais elevados da Igreja. Sua palavra impede que usemos a parábola apenas para julgar grupos, ministros ou pessoas das quais discordamos, porque ninguém ocupa uma posição tão segura que possa abandonar a vigilância. Quem se considera definitivamente trigo pode deixar de examinar os próprios pecados e começar a tratar a conversão como uma necessidade reservada aos outros.

A modernidade favorece essa ilusão porque nos acostumou a administrar aparências. Aprendemos a mostrar recortes bem escolhidos da vida e controlar a impressão que produzimos. Esse comportamento também pode entrar na fé, quando publicamos uma frase de santo, defendemos a doutrina e manifestamos indignação diante dos erros do mundo, enquanto permanecemos sem combater os vícios do nosso dia a dia, como a persistência na vaidade, a desonestidade e os pecados escondidos. Isso porque a verdade pode estar em nossas palavras sem ter alcançado nossos hábitos.

O joio interior cresce quando a religião se torna instrumento de comparação. Em vez de permitir que a Palavra nos corrija, usamos a verdade para medir a distância entre nós e os outros. A fidelidade passa a ser confundida com a capacidade de identificar erros alheios. Pouco a pouco, a consciência perde sensibilidade para as próprias faltas, e a pessoa aprende a defender aquilo que a Igreja ensina sem aceitar que esse ensinamento julgue sua vida. O conhecimento da fé, quando separado da humildade, pode produzir uma segurança perigosa.

São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “boca de ouro” da Igreja, observa que o inimigo semeia o erro ao lado da verdade e lhe dá uma aparência semelhante para enganar com maior facilidade. Essa ação também aparece nas justificativas que criamos para conservar pecados com aparência de virtude. A agressividade recebe o nome de firmeza, a vaidade se apresenta como zelo, a omissão é chamada de prudência e o apego desordenado passa por responsabilidade. Quando o mal consegue vestir uma linguagem cristã, deixa de provocar vergonha e começa a parecer parte da nossa fidelidade.

Vigiar exige olhar para os frutos sem desculpas. A Palavra deve produzir em nós uma caridade mais concreta, uma consciência mais reta e disposição verdadeira para obedecer a Deus. Quando anos de prática religiosa não modificam a maneira como tratamos as pessoas, usamos o dinheiro, enfrentamos as tentações ou reconhecemos os próprios erros, precisamos perguntar o que está crescendo no campo, pois a demora da colheita não significa que o Senhor deixou de ver.

A paciência do dono do campo revela misericórdia, mas não elimina o julgamento. Cristo permite que ambos cresçam até o tempo determinado porque a separação precipitada poderia ferir o trigo e porque ainda existe possibilidade de mudança para o joio. São João Crisóstomo explica que parte do joio pode tornar-se trigo, essa esperança impede o desespero, mas também retira qualquer desculpa para a acomodação. O fato de Deus conceder tempo não significa que aprove nossas escolhas, pelo contrário o tempo recebido é espaço para arrependimento.

Preparar-se para a colheita exige uma vida sacramental vivida com verdade. A confissão perde seu sentido quando se torna apenas repetição de faltas sem propósito de mudança. A Eucaristia não pode ser recebida como confirmação automática de que tudo está bem. A oração precisa abrir espaço para que Deus contradiga nossas vontades e desfaça a imagem confortável que construímos de nós mesmos, porque a graça cura a pessoa que aceita apresentar sua miséria sem disfarces.

Também precisamos abandonar a pressa de arrancar o joio dos outros, o Senhor confiou aos anjos a separação final, não à nossa impaciência. Isso não significa aceitar o erro ou tratar o pecado como indiferente. A correção é necessária, mas deve nascer da caridade e da consciência de que também dependemos da misericórdia e quem combate o mal apenas fora de si corre o risco de se tornar semelhante àquilo que condena. 

No final da parábola, os justos brilharão no Reino do Pai. Esse brilho não virá da reputação religiosa acumulada, mas da graça acolhida e transformada em fruto. Até a colheita, precisamos desconfiar da autossuficiência e permanecer disponíveis à conversão. Pode haver trigo frágil que Deus está fortalecendo, assim como pode existir joio escondido sob uma aparência convincente.

O Evangelho deste domingo nos pede coragem para olhar o campo que carregamos dentro de nós. Talvez tenhamos aprendido a parecer trigo antes de aprender a viver como trigo. Ainda há tempo para permitir que Cristo retire as falsidades, corrija os hábitos e transforme aquilo que parecia perdido. Que a paciência do Senhor não nos torne negligentes, mas agradecidos. E que, quando chegar a colheita, nossa vida seja reconhecida pelos frutos que a Palavra produziu nela.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.

Sem Nome

Por onde andarmos que a justiça nos guie. Para que quando falarmos, a verdade saia de dentro de nós. Diante do sofrimento que sejamos alento e nas dificuldades criemos algo que agrade a Ti. Para a qualquer momento elevarmos Teu Nome e assim partilharmos o amor que nos move a sermos ferramentas confiantes da Tua misericórdia. Amém!

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