Sobre a excomunhão

Em 2026, um problema antigo relacionado à doutrina, à disciplina e à comunhão da Igreja ganhou um novo capítulo. Refiro-me à situação da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Talvez você só tenha ouvido falar dela recentemente, e não se preocupe, essa é a realidade de grande parte dos católicos. Mas os problemas relacionados à comunhão da Fraternidade com a Cátedra de Pedro não começaram agora. Eles remontam, no mínimo, às tensões posteriores ao Concílio Vaticano II e ganharam um marco doloroso em 1988, quando São João Paulo II, na carta apostólica Ecclesia Dei, tratou das ordenações episcopais realizadas por Dom Marcel Lefebvre sem mandato pontifício, declarando que tal ato havia tornado inúteis os esforços feitos para assegurar a plena comunhão da Fraternidade com a Igreja. (Vaticano)

O assunto voltou a ganhar notoriedade porque, em 2 de julho de 2026, o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou um decreto relativo às consagrações episcopais realizadas sem mandato pontifício por membros ligados à Fraternidade Sacerdotal São Pio X. O decreto declarou a excomunhão latae sententiae reservada à Sé Apostólica para os envolvidos no ato, citando os cânones 1387 e 1364 §1 do Código de Direito Canônico. A nota explicativa do mesmo Dicastério também afirmou que os ministros sagrados pertencentes à Fraternidade se encontram em situação de cisma, advertindo os fiéis a permanecerem firmes na comunhão com o Romano Pontífice, com os bispos em comunhão com ele e com toda a Igreja. (Vaticano) (Vaticano)

Muitas opiniões surgiram a partir disso. Alguns olham para os membros da Fraternidade apenas como cismáticos que precisam ser punidos. Outros os enxergam apenas como vítimas de um mundo secular que deseja destruir a verdadeira Igreja. Há também aqueles que julgam a decisão da Santa Sé como se tivessem diante de si todas as informações doutrinais, históricas, canônicas e pastorais envolvidas. E há uma boa parte dos fiéis que simplesmente não entende o que está acontecendo, mas mesmo assim se sente pressionada a tomar partido, como se todo católico fosse obrigado a ter uma opinião definitiva sobre tudo aquilo que aparece na internet.

Eu já estive no grupo dos que não compreendiam quase nada sobre esse assunto. Se alguém me perguntasse, até pouco tempo atrás, o que eu sabia sobre a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, minha resposta seria simples: nada. Depois de ler com mais calma, buscando olhar com misericórdia para os defensores, com justiça para os acusadores, e com caridade para ambos. Procurando entender o que levou alguns a esse ponto de ignorar os direcionamentos da Igreja e o que levou a própria Igreja a precisar agir com uma medida tão grave. Depois disso, minha posição mudou. Não sou mais alguém que simplesmente não entende o que está acontecendo. Hoje, sou alguém que entende um pouco mais e, justamente por isso, não deseja e não ousa transformar esse tema em disputa de torcida.

A internet está repleta de opiniões fortes sobre tudo, e sobre esse assunto não seria diferente. Mas nem toda opinião forte nasce da verdade, assim como nem todo silêncio nasce da covardia. Às vezes, calar-se é apenas reconhecer que há assuntos que exigem mais prudência do que indignação. O próprio Senhor nos adverte, “não julgueis, para que não sejais julgados; pois com o julgamento com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que medirdes sereis medidos”(Mt 7,1-2). Isso não significa relativizar a doutrina, fingir que nada aconteceu ou negar a autoridade da Igreja. Significa apenas reconhecer que não cabe a cada fiel transformar uma questão grave de comunhão eclesial em espetáculo de comentários, ataques, ironias e condenações pessoais.

Por isso busquei fugir dos noticiários muitas vezes apressados, dos comentaristas pouco católicos e das bolhas que só repetem aquilo que desejam ouvir, fui aos documentos da Santa Sé. E depois de ler os decretos, notas e normas, cheguei a uma conclusão que me lembrou uma frase que um padre amigo meu sempre dizia, “cabeça de padre, só entende padre; cabeça de bispo, só entende bispo”. Há questões na vida da Igreja que não se resolvem com vídeos curtos, recortes de documentos ou comentários inflamados. A Igreja pensa com séculos, julga com prudência e age, quando necessário, com uma autoridade que não nasceu da internet, mas de Cristo.

O Catecismo da Igreja Católica ensina que a excomunhão é a pena eclesiástica mais severa, impedindo a recepção dos sacramentos e o exercício de certos atos eclesiásticos, e que sua absolvição deve seguir o direito da Igreja. Isso nos ajuda a compreender que a excomunhão não é uma palavra decorativa, nem uma simples opinião administrativa, nem uma vingança institucional. É uma medida grave, medicinal e espiritual. O próprio Direito Canônico afirma que as penas devem ser aplicadas tendo em vista a restauração da justiça, a correção do culpado e a reparação do escândalo. Portanto, a excomunhão não deve ser celebrada como expulsão de inimigos, mas recebida com temor, oração e desejo de reconciliação. (Vaticano) (Vaticano)

Ao mesmo tempo, é preciso observar que a própria Igreja distingue as situações. As normas publicadas para a reconciliação de pessoas provenientes da Fraternidade afirmam que, no caso dos leigos, a imputabilidade ou o grau de responsabilidade subjetiva não pode ser presumido automaticamente, mas deve ser avaliado caso a caso. O documento distingue, por exemplo, aqueles que aderiram formalmente às posições da Fraternidade daqueles que a frequentaram apenas por motivos litúrgicos ou espirituais, sem rejeitar o Magistério ou a autoridade do Romano Pontífice. Essa distinção é importante, porque mostra que a Igreja não age como uma máquina de punição, mas como mãe que corrige, discerne e deseja reconduzir seus filhos à plena comunhão.

Por isso, aqui precisamos fazer uma correção interior. Não é lícito a um católico torcer pela excomunhão de ninguém. A nossa obrigação é rezar, trabalhar pela conversão e suplicar a Deus pela salvação das almas. Em Fátima, Nossa Senhora pediu oração e sacrifício pelos pecadores, lembrando aos pastorinhos a gravidade da perdição das almas e a necessidade de oferecer-se pela conversão dos pecadores. (Vaticano) Se rezamos pelos que estão longe da fé, pelos pecadores públicos, pelos inimigos da Igreja e por tantos que rejeitam a Deus, com muito mais razão devemos rezar por sacerdotes, religiosos e fiéis envolvidos em feridas internas da própria Igreja.

Também não é lícito tratar o Magistério da Igreja como se fosse apenas mais uma opinião dentro da nossa preferência pessoal. O Concílio Vaticano II ensina que os bispos exercem seu ministério em comunhão hierárquica com a cabeça e os membros do colégio episcopal, e que o colégio dos bispos não tem autoridade senão em união com o Romano Pontífice, sucessor de Pedro. Ensina ainda que os fiéis devem aderir com religioso acatamento ao magistério autêntico, especialmente ao do Romano Pontífice, mesmo quando ele não fala ex cathedra. (Vaticano) (Vaticano)

Santo Agostinho afirma que, “eu não creria no Evangelho, se a isso não me movesse a autoridade da Igreja Católica” e que “escolher no Evangelho apenas aquilo que nos agrada não é crer no Evangelho, mas em nós mesmos”. Essas palavras são necessárias em tempos nos quais muitos desejam uma Igreja feita sob medida, onde aceitam a tradição quando ela confirma suas preferências e rejeitam a autoridade quando ela exige obediência. A fé católica não é construída pela seleção individual daquilo que mais nos agrada, mas pela adesão à verdade recebida da Igreja. (Novo Advento) (Biblioteca de Logos)

São Cipriano de Cartago recordava que “não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe” e em comunhão com esse pensamento, Santo Inácio de Antioquia, ainda nos primeiros séculos, ensina que “onde aparece o bispo, aí esteja a comunidade; assim como onde está Cristo Jesus, aí está a Igreja Católica”. Essas afirmações não anulam a necessidade de rezar pelos que se afastam, mas nos impedem de romantizar a ruptura como se a comunhão com a Santa Igreja fosse apenas detalhe disciplinar. A Igreja não é um clube de preferências espirituais; ela é o Corpo de Cristo, una, santa, católica e apostólica, conduzida visivelmente pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele. (Novo Advento) (Vaticano)

Por isso, diante de dúvidas, tensões e perplexidades, a pergunta de um católico não deve ser, qual grupo da internet parece mais convincente?. A pergunta precisa ser mais simples e mais profunda, onde está Pedro? Onde estão os bispos em comunhão com Pedro? Onde está a Igreja que recebeu de Cristo a missão de ensinar, santificar e governar? O Catecismo recorda que o encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus foi confiado ao Magistério vivo da Igreja, exercido pelos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro. Também ensina que o Papa, bispo de Roma e sucessor de São Pedro, é princípio perpétuo e visível da unidade entre os bispos e entre os fiéis. (Vaticano) (Vaticano)

Quem tiver curiosidade, leia os documentos. Leia o decreto. Leia a nota explicativa. Leia as normas de reconciliação. Leia também Ecclesia Dei e os documentos posteriores de Bento XVI sobre a tentativa de favorecer a plena comunhão. Mas leia como católico, não como torcedor. Leia para compreender pelo que rezar, por quem rezar e como suplicar ao Espírito Santo pela unidade da Igreja. Bento XVI deixou claro, em 2009, que a remissão das excomunhões dos quatro bispos consagrados em 1988 buscava retirar um impedimento ao diálogo e convidar a Fraternidade a reencontrar o caminho para a plena comunhão com a Igreja. (Vaticano)

Mais uma vez reforço, não se trata de julgar pessoas ou tomar partido em brigas de internet. Trata-se de permanecer na comunhão da Santa Igreja, obedecer com fé, rezar pelos que se afastaram e não transformar uma ferida eclesial em palco de vaidade doutrinária. A excomunhão não é, para a Igreja, um simples instrumento de exclusão de fiéis, mas uma medida grave que aponta com clareza a ruptura e indica, ao mesmo tempo, o caminho necessário para o retorno à plena comunhão. A mãe que corrige não deixa de ser mãe, muitas vezes, justamente porque ama, precisa corrigir.

Que este assunto nos leve menos à curiosidade desordenada e mais à oração. Menos à disputa e mais à unidade. Menos ao julgamento e mais à fidelidade. Que rezemos pelos sacerdotes, pelos bispos, pelo Papa, pelos membros da Fraternidade, pelos leigos confusos, pelos que se afastaram e por todos nós, porque também nós precisamos todos os dias da misericórdia de Deus e da segurança materna da Santa Igreja.

Divino Salvador, Jesus Cristo,/ concedei-nos sacerdotes santos,/ inflamados no fogo de vosso amor,/ totalmente doados à edificação da vossa Igreja./
E vós, ó Maria,/ Mãe dos sacerdotes,/ vós que sois a onipotência suplicante,/ socorrei-os a todos,/ nos trabalhos e dificuldades que se encontrarem./
Virgem Mãe e Rainha dos Apóstolos de Jesus,/ aumentai nas famílias/ o respeito e o amor ao sacerdócio;/ suscitai novas vocações sacerdotais e religiosas./ Guiai segundo o amor do vosso coração/ os nossos seminaristas/ para que sejam mais tarde,/ dignos Ministros do Altar,/ santos e dedicados pastores do povo Cristão./ Que assim seja!

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.

Sem Nome

Por onde andarmos que a justiça nos guie. Para que quando falarmos, a verdade saia de dentro de nós. Diante do sofrimento que sejamos alento e nas dificuldades criemos algo que agrade a Ti. Para a qualquer momento elevarmos Teu Nome e assim partilharmos o amor que nos move a sermos ferramentas confiantes da Tua misericórdia. Amém!

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