“Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?” (Lc 1,39-56).
Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria | Solenidade
20º Domingo do Tempo Comum | Ano A

A Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria nos convida a contemplar aquela em quem a graça de Deus encontrou uma resposta sem reservas, para isso a Sagrada Liturgia da Santa Mãe Igreja, nos leva à casa de Isabel, quando Maria ainda carregava Jesus em seu ventre. Ali, antes que qualquer explicação fosse dada, algumas pessoas conseguiram perceber que Deus estava agindo. Isabel reconhece a presença do Senhor, João estremece de alegria ainda no ventre e Maria responde com o Magnificat. A cena inteira parece nos ensinar uma capacidade espiritual que muitas vezes perdemos, perceber quando a graça passa pela nossa vida.
Nem sempre Deus chega da maneira como imaginávamos, Isabel, por exemplo, havia esperado durante anos por um filho e provavelmente aprendera a conviver com uma realidade que já não esperava ver transformada. Maria, por sua vez, recebe uma missão que jamais poderia ter planejado para si. Quando as duas se encontram, nenhuma delas está vivendo uma história comum. O que chama atenção é a maneira como interpretam aquilo que lhes acontece. Elas não tratam os acontecimentos como coincidências felizes. Reconhecem que Deus entrou naquela história e passam a enxergar a própria vida a partir daquilo que Ele realizou.
Santo Ambrósio, bispo e um dos quatro grandes doutores latinos da Igreja, ao comentar a Visitação, observa que Isabel percebeu a chegada de Maria, enquanto João, ainda em seu ventre, reconheceu a chegada do Senhor. Os olhos podem enxergar apenas aquilo que acontece exteriormente, mas a graça permite reconhecer uma presença que não se apresenta imediatamente aos sentidos. Maria entrou naquela casa como uma jovem parente que vinha prestar auxílio. Isabel, movida pelo Espírito Santo, percebeu que havia muito mais diante dela e perguntou, “como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?” (Lc 1,43).
Santo Ambrósio explica que Isabel não fala por ignorância, mas porque reconhece que aquela visita não era consequência de seus méritos. Quem se acostuma a considerar tudo como resultado do próprio esforço encontra dificuldade para perceber a ação de Deus. Há encontros que não planejamos, livramentos que somente depois compreendemos e forças que aparecem quando já não sabíamos de onde poderiam vir. Nem tudo precisa ser chamado de acaso apenas porque não conseguimos explicar imediatamente.
Também existe o risco de procurar sinais extraordinários em todos os lugares, mas é preciso reconhecer que a graça não significa interpretar cada acontecimento como uma mensagem secreta de Deus, por isso texto sagrado nos oferece critérios mais seguros. A graça nos aproxima de Cristo, conduz à caridade, move à gratidão e nos torna mais disponíveis à vontade de Deus. Maria recebeu o anúncio do anjo e partiu para servir, Isabel foi cheia do Espírito Santo bendisse a obra de Deus, isso mostra que quando a graça age, ela não nos fecha em nós mesmos.
Talvez muitas visitas de Deus tenham passado diante de nós sem receber esse nome, quando pedimos para mudar e resistimos à pessoa que nos corrige. Quando rezamos por uma oportunidade de crescer e reclamamos quando aparece uma responsabilidade que exige mais de nós. Quando queremos confiar na Providência, mas consideramos abandono qualquer situação que escape ao nosso controle. Às vezes a graça não vem retirando o caminho difícil, mas vem oferecendo força para atravessá-lo.
São João Paulo II, o papa peregrino, na Redemptoris Mater, recorda que a plenitude da graça anunciada a Maria é dom de Deus e que sua fé revela a maneira como respondeu a esse dom. Reconhecer a graça é apenas o começo, depois de percebê-la, precisamos corresponder. Maria permitiu que o dom recebido determinasse seus passos, pois a graça pede uma resposta, e muitas oportunidades espirituais se perdem porque desejamos receber de Deus sem permitir que aquilo recebido nos transforme.
O Magnificat é proclamado a partir dessa consciência, Maria não olha para a própria história e conclui que realizou grandes coisas, ela se coloca na posição de quem reconhece que o Todo-poderoso fez grandes coisas em seu favor. Há uma humildade muito concreta em saber identificar aquilo que Deus realizou sem transformar sua ação em motivo de vaidade. Quem reconhece a graça aprende a agradecer, esse agradecimento precisa ser para nós uma realidade diária, talvez devêssemos terminar mais dias refletindo como Deus esteve presente, em vez de recordar apenas aquilo que deu errado. Assim impedimos que as dificuldades nos tornem incapazes de perceber o bem que continua chegando.
A Assunção leva essa reflexão ao seu cumprimento, nós contemplamos Maria glorificada no Céu e reconhecemos nela a obra de Deus levada à plenitude. A solenidade também nos recorda o destino para o qual caminhamos. Não recebemos a graça apenas para resolver problemas desta vida, Deus age em nós para nos conduzir à comunhão eterna com Ele, por isso enquanto peregrinamos nessa terra cada graça acolhida e correspondida orienta o coração para esse destino.
É por isso que nós temos que realizar um esforço diário para restaurar memória espiritual, nossas mentes estão treinadas para recordar com precisão, e por vezes de maneira exagerada, as dores que sofremos, mas quase esquecemos as vezes em que fomos sustentados pela graça de Deus. A memória da graça fortalece a confiança, assim como Maria faz no Magnificat. Ela contempla o que Deus realizou nela e amplia seu olhar para aquilo que Ele fez através das gerações, unindo sua história pessoal com a história da Misericórdia Divina.
Neste domingo, a pergunta de Isabel pode tornar-se também nossa oração, “como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?” (Lc 1,43). Talvez Ele já esteja nos visitando através de uma graça que ainda não aprendemos a reconhecer. Pode ser que aquilo que hoje parece pequeno esteja carregando uma resposta que somente mais tarde compreenderemos. Precisamos pedir olhos capazes de perceber sua presença sem inventar sinais, coração humilde para agradecer sem atribuir tudo a nós mesmos e disposição para responder quando a graça exigir movimento.
Nossa Senhora reconheceu os grandes feitos de Deus e fez de sua vida uma resposta a eles. Que sua Assunção nos forneça o animo espiritual para não atravessarmos distraídos o tempo que recebemos e nos conduza a peregrinar nessa terra com a Igreja militante que busca o triunfo de estar na eterna presença da Trindade. Confiantes de que a Graça continua nos visitando, sustentando, corrigindo e chamando. Que saibamos percebê-la enquanto passa por nossa casa e, sobretudo, que tenhamos coragem de permitir que ela mude a direção dos nossos passos.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.

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