No domingo, professe a sua fé

“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,13-20).

21º Domingo do Tempo Comum | Ano A

É relativamente fácil responder quem Jesus é quando conhecemos o Catecismo, participamos da Santa Missa e aprendemos desde pequenos as verdades da fé. Sabemos dizer que Ele é o Filho de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, nosso Salvador. Contudo, existe outra resposta que oferecemos todos os dias, muitas vezes sem pronunciarmos uma única palavra. Nossa vida também diz quem acreditamos que Jesus seja. As escolhas que fazemos revelam se Ele é realmente o Senhor ou apenas alguém a quem reservamos uma parte limitada de nossa existência.

São Cirilo de Jerusalém, bispo e doutor “Príncipe dos Catequistas” da Igreja, ao comentar essa passagem, recorda que Pedro não chegou àquela confissão por simples raciocínio humano. O Pai iluminou sua inteligência para que reconhecesse no homem diante de seus olhos o Filho do Deus vivo. Os demais enxergavam um profeta extraordinário. Pedro recebeu a graça de perceber quem estava verdadeiramente diante dele. Essa diferença continua importante, porque podemos admirar Jesus sem reconhecê-Lo como Senhor. Podemos apreciar suas palavras sobre amor, misericórdia e perdão enquanto rejeitamos sua autoridade quando o Evangelho exige mudança de vida.

Se Jesus é somente um mestre admirável, podemos escolher entre seus ensinamentos aquilo que consideramos conveniente. Se é apenas uma referência espiritual, podemos procurá-lo quando precisamos de consolo e deixá-Lo de lado quando nossas vontades caminham em outra direção. Mas, se Ele é realmente “o Messias, o Filho do Deus vivo”(Mt 16,16b), sua palavra possui autoridade sobre toda a nossa vida. Não podemos chamar Cristo de Senhor no domingo e viver durante a semana como se nossas decisões não tivessem qualquer relação com Ele.

Talvez seja esse o exame que o Evangelho nos propõe. Quem estamos dizendo que Jesus é pela maneira como tratamos as pessoas quando não precisamos delas? Quem dizemos que Ele é quando uma verdade da fé entra em conflito com aquilo que desejamos? Nossa resposta aparece especialmente quando seguir Cristo custa alguma coisa. Enquanto a fé coincide com nossas preferências, é difícil saber quem realmente ocupa o primeiro lugar. A fidelidade se torna mais clara quando precisamos escolher entre permanecer com Cristo ou preservar uma vontade que sabemos não poder levar conosco.

Santo Hilário de Poitiers, bispo e doutor “Martelo dos Arianos” da Igreja, ensina que Pedro foi bem-aventurado porque conseguiu enxergar além daquilo que os olhos humanos podiam alcançar. Via diante de si um homem, mas confessou o Filho de Deus. Para o santo Doutor, dizer apenas que Jesus era o Cristo sem confessá-Lo verdadeiramente como Filho de Deus teria sido uma profissão incompleta. Também podemos construir confissões incompletas quando afirmamos corretamente quem Cristo é, mas organizamos a vida como se essa verdade não possuísse consequências.

Há uma forma silenciosa de negar Jesus que raramente utiliza palavras contra Ele. Acontece quando sua presença se torna irrelevante para nossas decisões. Continuamos dizendo que temos fé, mas já não perguntamos se aquilo que fazemos agrada a Deus. Aos poucos, a consciência aprende a acomodar o Evangelho ao modo como desejamos viver. Então ainda chamamos Jesus de Senhor, embora sejamos nós quem determinamos até onde sua autoridade pode chegar.

Pedro também nos ensina que confessar corretamente Cristo não significa tornar-se imediatamente perfeito. Poucos versículos depois, o mesmo apóstolo tentará afastar Jesus do caminho da cruz e será severamente corrigido. Mais tarde, durante a Paixão, negará três vezes conhecê-Lo. A profissão de fé precisa ser aprofundada durante toda a vida. Podemos saber quem Jesus é e ainda precisar converter muitas partes do coração que continuam resistindo a essa verdade. Por isso, a vida cristã não comporta a segurança daquele que pensa já ter chegado.

Cristo entrega a Pedro as chaves do Reino dos Céus depois de sua confissão. A resposta sobre quem Jesus é também conduz à Santa Mãe Igreja. Não foi Pedro quem inventou para si uma autoridade, ele a recebeu daquele que reconheceu como Filho de Deus. Também aqui nossa vida revela muito sobre nossa resposta. Não faz sentido professar amor por Cristo enquanto tratamos a Igreja fundada por Ele como uma instituição cuja doutrina só precisa ser obedecida quando concorda conosco. A mesma fé que diz “Tu és o Messias” (Mt 16,16b), precisa aprender a receber aquilo que Ele quis confiar à sua Santa Igreja.

Talvez hoje a pergunta de Jesus seja ainda mais necessária porque vivemos cercados de inúmeras versões de Cristo. Há quem deseje um Jesus que nunca julga nenhuma escolha, outro que serve apenas como inspiração para alcançar objetivos pessoais, e ainda aquele reduzido a símbolo de algumas causas escolhidas segundo o espírito de cada época. A resposta de Pedro impede que fabriquemos um Cristo adequado às nossas preferências. Ele não é aquilo que gostaríamos que fosse. É o Filho do Deus vivo, e somos nós que precisamos permitir que nossa vida seja transformada pela verdade de quem Ele é.

Isso não acontece apenas nas grandes decisões. Nossa profissão de fé se torna visível na forma como enfrentamos um dia comum. Quando escolhemos a honestidade mesmo podendo lucrar com o contrário, quando permanecemos fiéis a uma responsabilidade sem receber reconhecimento e quando buscamos a confissão porque sabemos que o pecado nos afastou de Deus, estamos respondendo à pergunta de Cristo. A vida começa a dizer aquilo que os lábios professam.

Um dia, não precisaremos mais responder diante dos homens quem acreditamos que Jesus seja. Estaremos diante Dele. Nesse encontro, nossa resposta não será formada apenas pelas palavras que aprendemos, mas pela vida que construímos a partir delas. Que Pedro nos ajude a confessar com clareza, “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16b). E que a graça nos conceda algo ainda mais difícil, viver de maneira que nossas escolhas não contradigam aquilo que nossa boca acabou de professar. 

Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.

Sem Nome

Por onde andarmos que a justiça nos guie. Para que quando falarmos, a verdade saia de dentro de nós. Diante do sofrimento que sejamos alento e nas dificuldades criemos algo que agrade a Ti. Para a qualquer momento elevarmos Teu Nome e assim partilharmos o amor que nos move a sermos ferramentas confiantes da Tua misericórdia. Amém!

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