“Estás com inveja, porque estou sendo bom?” (Mt 20,1-16a).
25º Domingo do Tempo Comum | Ano A

A parábola deste domingo começa com trabalhadores chamados em horários diferentes para a mesma vinha. Alguns chegam logo cedo e suportam o peso de todo o dia, outros são encontrados mais tarde, até que os últimos trabalham apenas uma pequena parte da jornada, ao final todos recebem o mesmo pagamento. Aqueles que chegaram primeiro não haviam sido enganados, receberam exatamente aquilo que haviam combinado com o proprietário. A insatisfação nasce quando deixam de olhar para o que receberam e começam a medir a própria recompensa pelo que foi dado aos outros.
A inveja possui essa capacidade de diminuir aquilo que já temos sem retirar absolutamente nada de nossas mãos. O trabalhador continua com seu denário, mas aquilo que antes lhe parecia justo deixa de ser suficiente depois que percebe a generosidade concedida ao último. O bem recebido pelo outro passa a ser interpretado como uma ofensa. Cristo revela a enfermidade daquele olhar quando pergunta, “estás com inveja, porque estou sendo bom?” (Mt 20,15b). O senhor da vinha continua bom, o problema está nos olhos de quem já não consegue contemplar sua bondade sem antes comparar-se.
São Gregório de Nissa, bispo e um dos “Padres Capadócios” doutor da Igreja, compara o invejoso a alguém que, diante da luz do sol, fecha voluntariamente os olhos e passa a enxergar apenas escuridão. Deus pode continuar derramando graças sobre nossa vida, mas a comparação constante vai nos tornando incapazes de percebê-las. Começamos a agradecer menos porque estamos ocupados observando aquilo que ainda não recebemos e aos poucos, a prosperidade de alguém deixa de despertar alegria e passa a produzir a sensação de que Deus foi menos generoso conosco.
As redes sociais deram a essa tentação uma dimensão que poucas gerações conheceram. Carregamos no bolso uma janela aberta para a vida de centenas de pessoas e esquecemos que aquilo que vemos quase nunca corresponde à totalidade de suas histórias. Comparamos nossa vida real, conhecida por dentro, com alguns momentos escolhidos da vida alheia. Conhecemos nossas contas, dificuldades familiares, dias cansativos e frustrações. Do outro lado da tela aparecem viagens, conquistas, sorrisos e acontecimentos selecionados para serem mostrados.
O problema não está simplesmente em publicar ou acompanhar essas coisas, surge quando começamos a medir nossa felicidade por aquilo que os outros decidiram exibir. Uma parte considerável das nossas insatisfações talvez desaparecesse se parássemos de colocar nossa existência inteira diante da parte mais bonita e editada da existência de outra pessoa. Enquanto desejamos aquela viagem, talvez deixemos de agradecer pela casa para onde podemos voltar. Enquanto invejamos determinada família, podemos descuidar daquela que Deus colocou sob nossa responsabilidade. Enquanto pensamos que todos avançaram mais do que nós, ignoramos graças que algum dia pedimos em oração e que agora tratamos como comuns.
São Pedro Crisólogo, bispo e doutor “palavra de ouro” da Igreja, dizia que a inveja obscurece a visão e em um de seus sermões, descreve como ela pode tornar os olhos incapazes de reconhecer o bem colocado diante deles. Essa cegueira explica por que a inveja também nos afasta de Deus. Quando cultivamos continuamente a comparação, começamos a suspeitar de sua bondade, perguntamos por que aquela pessoa recebeu e nós não, por que sua vida parece mais fácil ou por que sua recompensa parece maior. Sem perceber, deixamos de conversar com Deus como filhos e começamos a julgá-lo como trabalhadores insatisfeitos diante do dono da vinha.
A parábola também nos recorda algo que raramente conseguimos enxergar quando estamos com inveja, desconhecemos o caminho do outro. Vemos o pagamento dos trabalhadores da última hora, mas não sabemos por que permaneceram tanto tempo sem trabalho. Também enxergamos resultados na vida das pessoas sem conhecer completamente suas renúncias, feridas ou sofrimentos. Muitas vezes desejamos uma parte da história de alguém sem saber se estaríamos dispostos a carregar tudo aquilo que veio junto com ela.
A cura da inveja passa pela gratidão, mas não uma gratidão ingênua, incapaz de reconhecer dificuldades, mas uma memória honesta das graças recebidas. Precisamos voltar a enxergar aquilo que a comparação tornou pequeno, pois há bênçãos que perderam nosso encanto apenas porque se tornaram habituais. Talvez aquilo que hoje consideramos insuficiente tenha sido motivo de uma oração insistente alguns anos atrás.
Neste domingo, Cristo nos pede atenção ao modo como olhamos para a bondade de Deus, para lembramos que a graça concedida a outra pessoa não diminui a nossa. O Senhor da vinha continua nos chamando, oferecendo aquilo que prometeu e sendo generoso segundo sua sabedoria. Precisamos apenas recuperar olhos capazes de perceber e talvez nossa vida já possua muito mais motivos de gratidão do que conseguimos enxergar enquanto permanecemos olhando para a paga recebida pelos outros.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.

Você precisa fazer login para comentar.