Sobre catequizar

A primeira lembrança que tenho de estar diante de uma turma de catequese é de quando devia ter nove ou dez anos. Eu me vestia de palhaço e ajudava com as crianças menores. Naquela época, acredito que a irmã responsável pela minha turma tenha encontrado aquela solução também como uma maneira de me manter um pouco mais quieto, porque nunca fui uma criança muito paciente para ouvir repetidamente aquilo que eu achava que já sabia. Demorei algum tempo para compreender uma coisa bastante simples, era repetido para mim porque eu já tinha aprendido, mas talvez aquela fosse justamente a primeira vez que outra criança estivesse ouvindo.

Muitos anos depois continuo na catequese e talvez uma das convicções que mais defendo seja esta, catequizar crianças não pode ser apenas transmitir doutrina, embora ensinar corretamente a doutrina seja indispensável. Precisamos ensiná-las a viver a fé, a compreender a Igreja não como mais uma obrigação colocada pelos pais na agenda da semana, mas como sua casa, o lugar onde encontram irmãos e aprendem a encontrar Cristo. O próprio Catecismo explica que a catequese existe para “fazer discípulos”, educar e instruir na vida cristã, integrando a experiência da fé, os sacramentos, a comunidade e o testemunho apostólico (cf. CIC, 4-6).

Minha forma de catequizar foi muito marcada pela espiritualidade e pela pedagogia inacianas, que me ensinaram a compreender que pessoas diferentes, em momentos diferentes da vida, precisam ser conduzidas também de maneiras diferentes. Não se fala com uma criança de dez anos como se fala com um adulto, embora a verdade anunciada seja a mesma. O Concílio Vaticano II já ensinava que a formação deve considerar a idade, as condições e o desenvolvimento de crianças e adolescentes, ajudando-os não apenas a conhecer, mas a “conhecer e amar Deus mais perfeitamente”(Gravissimum Educationis, n. 1).

“Deixai as crianças e não as impeçais de vir a mim, porque delas é o Reino dos Céus” (cf. Mt 19,14), meditando essa afirmação de Jesus, Ele nos obriga a perguntar a nós mesmo, aquilo que fazemos ajuda as crianças a irem até Cristo ou, mesmo sem perceber, estamos colocando obstáculos no caminho?

Pensei nisso recentemente quando recebi a mensagem de uma mãe perguntando se sua filha poderia voltar à catequese. A menina estava a cerca de um mês e meio sem participar por causa de problemas familiares. Naquele sábado, porém, acordou e pediu à mãe que a levasse para a catequese. A mãe me escreveu perguntando se ainda poderia levá-la. Minha resposta foi simplesmente que sim.

Depois fiquei pensando naquela pergunta. Quantas regras, listas e burocracias conseguimos colocar entre uma criança que pede para ir à catequese e Jesus que diz, “deixai as crianças virem a mim”?

Muito se repete que catequese não é escola e que o encontro catequético não deve funcionar simplesmente como uma aula. Concordo. Ao mesmo tempo, entregam-nos fichas, cronogramas, conteúdos e listas de frequência, todas ferramentas que podem ser úteis para acompanhamento e organização. O problema começa quando a ferramenta se transforma na finalidade. Frequência precisa servir ao acompanhamento pastoral, não pode fazer com que percamos de vista a criança que está por trás da falta registrada no papel.

São João Paulo II ensinou que “no centro da catequese encontramos essencialmente uma Pessoa: a Pessoa de Jesus de Nazaré” e que sua finalidade é colocar a pessoa em comunhão e intimidade com Jesus Cristo (Catechesi Tradendae, n. 5; cf. CIC, 426). Se terminamos nossos conteúdos, completamos o calendário e registramos perfeitamente todas as frequências, mas aquela criança não aprendeu a amar Cristo e sua Santa Igreja, alguma coisa essencial ficou pelo caminho.

Isso também não significa transformar catequese em recreação permanente para garantir que todos gostem do encontro. A criança precisa aprender, ser corrigida, conhecer a doutrina, rezar, compreender os sacramentos e amadurecer na fé. Mas tudo isso precisa acontecer dentro de uma relação em que ela se perceba acolhida, mas não significa ausência de disciplina; significa que até a correção precisa nascer do desejo de conduzir aquela criança para o bem e, finalmente, para Deus.

A Santa Mãe Igreja recorda que a catequese precisa de proximidade, diálogo, paciência e “acolhimento cordial que não condena”, e que o encontro catequético deve integrar todas as dimensões da pessoa em um caminho comunitário de escuta e resposta (Evangelii Gaudium). Catequese não é apenas explicar Deus para uma criança, é ajudá-la a perceber que Deus a ama, que Cristo morreu e ressuscitou por ela e que existe uma comunidade onde essa fé pode ser vivida.

Por isso, se você é catequista, talvez valha a pena se perguntar, seus catequizandos desejam ir à igreja? Depois do encontro, conhecem alguma coisa a mais sobre Cristo ou apenas cumpriram mais uma obrigação semanal?

Não somos responsáveis por todas as escolhas que essas crianças farão quando crescerem. Um catequista não possui o poder de garantir que todos permanecerão na Igreja. Mas somos corresponsáveis pela imagem da Igreja que ajudamos a construir diante delas. Talvez, muitos anos depois, elas não se lembrem de todos os temas trabalhados na catequese, mas se lembrarão se naquele lugar foram acolhidas, corrigidas com amor, ensinadas com seriedade e apresentadas verdadeiramente a Jesus.

E, caso você não seja catequista, não pense que está completamente fora dessa missão. Pelo Batismo, todos somos chamados ao testemunho e à santidade. O Concílio Vaticano II ensina que esse chamado é dirigido a todos os discípulos de Cristo, em qualquer condição de vida (Lumen Gentium, n. 40). Talvez nem todos recebam uma turma, uma sala e uma lista de frequência, mas todo cristão, de alguma maneira, ensina alguém quem é Cristo pela forma como vive.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.

Sem Nome

Por onde andarmos que a justiça nos guie. Para que quando falarmos, a verdade saia de dentro de nós. Diante do sofrimento que sejamos alento e nas dificuldades criemos algo que agrade a Ti. Para a qualquer momento elevarmos Teu Nome e assim partilharmos o amor que nos move a sermos ferramentas confiantes da Tua misericórdia. Amém!

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