Sobre inspirações

Durante um momento de descontração na catequese, percebi que um dos meus catequizandos pedia insistentemente aos outros.

– Não conta, não conta.

Eu não fazia ideia do que estavam falando. As outras crianças, naturalmente, queriam contar justamente por que ele não queria, até que a irmã resolveu acabar com o mistério, entre eles, tinham me dado o apelido de “Caçador Sung”.

Minha única referência possível para aquele nome era Sung Jin-Woo, personagem de Solo Leveling. Ainda assim, achei que provavelmente a referência deles fosse outra, pois ingenuamente pensei que eles não assistissem esse anime, erro meu. Quando perguntei, descobri que era exatamente aquela. Fiquei um pouco mais curioso e disse que não havia problema, desde que não fosse algo ofensivo, poderiam continuar com a brincadeira.

As crianças estavam no pátio e nessas horas costumo ficar um pouco mais distante, geralmente debaixo de uma árvore, para que possam conversar e brincar mais à vontade, mas sempre observando para mantê-las seguras. Foi quando a mãe daquele menino chegou para buscá-lo. Já muito mais confortável com o apelido, ele se despediu.

– Tchau, Jin-Woo.

Respondi e ele foi até a mãe. Ela havia escutado e veio me perguntar se eu sabia o que aquilo significava. Disse que sim. Ela contou que os filhos assistiam muito ao anime e perguntou por que me chamavam daquele jeito. Expliquei que tinha descoberto havia pouco tempo e que também não sabia exatamente o motivo.

Ela então perguntou diretamente ao filho, mas antes que ele respondesse, com receio de que ficasse constrangido por uma brincadeira sem importância, disse que estava tudo bem e que ela não precisava insistir. Mas ela perguntou novamente e ele explicou.

– É porque ele é muito inteligente e mesmo assim tem paciência com a gente que não sabe. Também é muito forte, mas não se importa que os outros achem que ele é bobo. Na Missa ele impõe respeito e, quando aparece alguém estranho, só o olhar dele já mete medo. E com um gesto ele diz o que a gente tem que fazer. Igual ao Caçador Sung.

Confesso que achei bastante elogioso. Fiquei feliz pelo modo como aquela criança enxergava o meu serviço e um pouco preocupado ao refletir que até as crianças já perceberam que algumas pessoas me tratam como bobo, mas isso é assunto para outra coluna.

Despedi-me deles e disse ao menino.

– Cuida da tua irmã.

Ele respondeu todo satisfeito.

– Eu sempre cuido.

Nós raramente sabemos como as pessoas nos enxergam, principalmente as crianças. Enquanto adultos, pensamos muito naquilo que dizemos para elas, nas orientações que damos, no conteúdo que ensinamos e nas correções que fazemos. Entretanto, esquecemos que elas também estão observando aquilo que fazemos quando não estamos ensinando nada.

Por isso que São Paulo aconselhava Timóteo, “torna-te modelo dos fiéis, pela palavra, pela conduta, pela caridade, pela fé e pela pureza” (cf. ITm 4,12). É interessante perceber que ele não fala apenas da Palavra. Coloca ao lado dela a conduta, o amor, a fé e a pureza. Há ensinamentos que saem da nossa boca, mas existem outros que somente podem ser percebidos olhando nossa vida.

Cristo também colocou uma enorme responsabilidade diante de todos aqueles que convivem com os pequenos. Ele disse que, “quem receber uma criança como esta em meu nome, a mim recebe” e logo em seguida advertiu, “não desprezeis nenhum desses pequenos” (cf. Mt 18,5.10).

Isso nos faz pensar, porque não somos perfeitos e estamos muito longe daquilo que Cristo espera de nós. Eu certamente estou. Mas, se Deus coloca crianças, jovens, alunos, filhos, sobrinhos ou qualquer outra pessoa em nosso caminho, existe ali também uma responsabilidade. Talvez aquela pessoa esteja aprendendo alguma coisa conosco mesmo quando não estamos tentando ensinar.

E isso não vale apenas dentro da igreja, não sei com o que você trabalha, onde mora, quais pessoas convivem com você ou quem observa seus passos. Mas alguém pode encontrar em você uma inspiração para fazer o bem ou uma justificativa para fazer o contrário.

Jesus disse, “brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (cf. Mt 5,16). Reparem que o objetivo não é fazer com que olhem para nós e digam como somos bons. As obras devem fazer com que olhem para Deus.

São Charles de Foucauld compreendeu isso de uma maneira belíssima. Ele desejava “gritar o Evangelho com a vida” e escreveu que “toda a nossa existência deve gritar o Evangelho”. Não com grandes discursos o tempo inteiro, mas com uma vida que permita às pessoas perceberem alguma coisa de Cristo em nós.

Talvez nunca saibamos quantas pessoas estão prestando atenção. Uma criança pode reparar na nossa paciência. Um colega pode perceber nossa honestidade. Alguém pode observar como tratamos quem não pode nos oferecer nada em troca. Outro pode notar como nos comportamos durante a Missa.

Por isso, cuidemos dos pequenos detalhes, porque o Evangelho que algumas pessoas conhecerão primeiro talvez não esteja em um livro aberto diante delas, mas na vida de um cristão que passou pelo seu caminho.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.

Sem Nome

Por onde andarmos que a justiça nos guie. Para que quando falarmos, a verdade saia de dentro de nós. Diante do sofrimento que sejamos alento e nas dificuldades criemos algo que agrade a Ti. Para a qualquer momento elevarmos Teu Nome e assim partilharmos o amor que nos move a sermos ferramentas confiantes da Tua misericórdia. Amém!

Siga-nos nas redes

Descubra mais sobre Sem Nome

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo