No domingo, ame

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento!” (Mt 22,34-40).

30º Domingo do Tempo Comum | Ano A

Pintura representando várias figuras ao redor de uma pia de água, algumas mulheres cuidando de um homem ferido, no fundo arcos arquitetônicos.

Quando o doutor da Lei pergunta a Jesus qual é o maior mandamento, provavelmente esperava que Ele escolhesse uma entre tantas prescrições conhecidas pelo povo. Cristo responde colocando diante dele aquilo que sustenta todas as demais, “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento!” (Mt 22,37). Pode parecer uma resposta simples, principalmente porque utilizamos a palavra amor com tanta frequência. O Evangelho, porém, fala de algo muito mais exigente do que um sentimento agradável experimentado em determinados momentos, porque para nós católicos o amor é uma forma de viver.

Não controlamos completamente aquilo que sentimos, existem dias em que a oração parece fácil e outros em que permanecer alguns minutos diante de Deus exige esforço. Há pessoas pelas quais experimentamos afeição imediata e outras cuja presença nos exige paciência. Se o mandamento dependesse apenas do sentimento, seria impossível ordenar, “amarás”. Jesus manda que amemos porque está falando também de uma decisão da vontade que precisa aparecer em ações concretas.

Santo Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus, ensina que a caridade se manifesta mais propriamente em amar do que em ser amado. O católico não deveria permanecer esperando receber atenção, reconhecimento ou reciprocidade para começar a amar. O amor precisa tomar a iniciativa, isso explica por que podemos continuar fazendo o bem mesmo quando não sentimos entusiasmo, quando ninguém agradece ou quando aquele a quem ajudamos não responde da maneira que esperávamos. O valor do ato não desaparece porque faltou emoção.

Talvez tenhamos aprendido a acreditar que um amor verdadeiro precisa ser constantemente sentido, mas essa expectativa produz frustração até na vida espiritual. Quando desaparece a consolação, imaginamos que Deus ficou distante. Quando a convivência se torna difícil, pensamos que o amor acabou. Mas o Evangelho nos ensina que amar significa escolher repetidamente aquilo que conduz ao bem, inclusive nos dias em que essa escolha custa mais.

São João de Ávila, doutor da Igreja e o santo amigo de santos, afirmava que aquilo que mais impulsiona o coração a amar Deus é considerar profundamente o amor que Ele teve por nós. Nossa caridade não começa em uma tentativa solitária de produzir sentimentos religiosos. Começa na descoberta de que fomos amados primeiro. Quem contempla com seriedade a cruz compreende que Cristo não amou apenas por palavras. Seu amor assumiu forma concreta, permaneceu quando houve sofrimento e chegou até a entrega da própria vida.

Também por isso o segundo mandamento não pode ser separado do primeiro. O papa Bento XVI escreveu na Deus Caritas Estque que o “amor a Deus e amor ao próximo são inseparáveis”. Por isso não podemos verdadeiramente afirmar que amamos Deus e, ainda assim, tratar com indiferença aquele que está diante de nós.

Assim quando conservamos exteriormente as práticas religiosas enquanto o coração se torna incapaz de servir, perdoar ou oferecer atenção, atestamos que alguma coisa perdeu sua ordem.

O próximo transforma o amor em algo verificável, é fácil dizer que amamos a humanidade. Muito mais difícil é amar a pessoa concreta que interrompe nosso descanso, contraria nossa vontade ou precisa de nós no momento menos conveniente. Amar o próximo acontece quando escolhemos escutar com atenção, quando controlamos uma palavra que feriria e quando ajudamos sem transformar o favor em dívida. São atos pequenos, mas é justamente pela repetição deles que o amor começa a tomar forma na vida.

Isso também vale dentro de casa, porque muitas vezes, até sem perceber, oferecemos aos outros uma gentileza que deixamos de cultivar com aqueles que convivem conosco. Podemos falar educadamente com desconhecidos e responder com impaciência à própria família. O amor católico precisa sobreviver à rotina, aparecendo quando continuamos servindo depois que a novidade terminou, quando permanecemos fiéis a compromissos antigos e quando fazemos novamente um bem que ninguém perceberá.

O papa Francisco recordou que podemos realizar muitas coisas boas e cumprir muitos preceitos, mas, sem amor, tudo isso perde sua finalidade. A vida cristã corre esse risco quando transforma os mandamentos em uma coleção de obrigações realizadas corretamente, mas sem caridade. Podemos cumprir horários, conhecer doutrina e preservar costumes enquanto o coração permanece duro. Jesus reúne toda a Lei no amor porque deseja que cada mandamento nos conduza à comunhão com Deus e à caridade para com o próximo.

O amor também precisa ser exercitado, ninguém se torna paciente por ter praticado paciência uma única vez. Não nos tornamos generosos por uma oferta isolada, nem misericordiosos porque perdoamos em determinada ocasião. Cada ato prepara o próximo e o papa Bento XVI expressou isso de maneira simples, “O amor cresce através do amor”. Quando escolhemos o amor repetidamente, a graça vai formando em nós uma disposição mais estável para amar.

Por isso, talvez seja insuficiente terminar o dia perguntando apenas se sentimos amor por Deus ou pelas pessoas. Podemos perguntar o que fizemos com o amor que professamos. Onde ele apareceu? Que escolha custou alguma coisa? Quem recebeu de nós um bem que poderia ter sido negado? O amor católico não precisa sempre de grandes ocasiões, mas precisa encontrar algum lugar concreto onde possa existir, como nos ensina São Francisco de Sales “as grandes ocasiões de servir a Deus são raras. As pequenas aparecem sempre”.

Neste domingo, Cristo volta a resumir diante de nós toda a Lei. Amar a Deus com tudo o que somos e o próximo como a nós mesmos não descreve um sentimento que alcançamos uma vez e conservamos para sempre. É uma decisão que precisará ser renovada amanhã e depois novamente. Haverá dias em que ela será acompanhada de alegria e outros em que dependerá simplesmente da fidelidade. O amor católico amadurece quando deixa de esperar apenas aquilo que sente e aprende a fazer, repetidamente, aquilo que Cristo ensinou.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.

Sem Nome

Por onde andarmos que a justiça nos guie. Para que quando falarmos, a verdade saia de dentro de nós. Diante do sofrimento que sejamos alento e nas dificuldades criemos algo que agrade a Ti. Para a qualquer momento elevarmos Teu Nome e assim partilharmos o amor que nos move a sermos ferramentas confiantes da Tua misericórdia. Amém!

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