Sobre os que partiram

Pintura de um homem e duas crianças caminhando em uma estrada de terra, com um campo de vinhedos ao fundo e fumaça de chaminés visível.

Na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, a Santa Mãe Igreja coloca diante de nós uma realidade da qual normalmente tentamos fugir, nós morreremos. Não sabemos quando, não sabemos como e, provavelmente, nunca estaremos completamente satisfeitos com a quantidade de tempo que recebemos. Mas Jesus Cristo não nos apresenta a morte para nos assustar, Ele nos manda permanecer com as lâmpadas acesas porque a vida cristã é também uma espera. Esperamos o Senhor sabendo que Ele virá e que, quando bater à nossa porta, já não será tempo de começar a preparar a casa.

O Papa São João Paulo II resumiu o ensinamento de Cristo como um verdadeiro mandamento, “Vigiai! Estai prontos!”. A morte, portanto, não deveria encontrar o cristão vivendo como se a eternidade fosse apenas uma possibilidade distante. Vivemos para encontrar a Jesus Cristo e cada confissão, cada Eucaristia, cada obra de misericórdia e cada combate contra o pecado também mantém acesa a lâmpada com a qual desejamos recebê-lo.

Mas não rezamos somente para que estejamos preparados, rezamos por aqueles que já partiram. E aqui surge uma pergunta que muitos fazem, se alguém morreu, por que rezar por ele? E a resposta é reconfortante para os que tem fé, a morte não destrói a comunhão da Santa Igreja. O Segundo Livro dos Macabeus já chama de “santo e piedoso” rezar pelos mortos para que sejam libertos de seus pecados (cf. 2Mc 12,44-46). Santo Agostinho ensina que as almas dos falecidos podem ser ajudadas pela piedade dos vivos, sobretudo pelo Sacrifício oferecido por elas e pelas esmolas. São João Crisóstomo também exortava os cristãos a não hesitarem em ajudar os mortos oferecendo orações por eles. Por isso nós enquanto Igreja não estamos vivendo uma realidade inventada por superstição moderna, recebemos e conservamos a prática de rezar pelos fies defuntos desde os primeiros tempos.

Mas para compreender mais a fundo o que fazemos, é preciso compreender o purgatório. Ele não é uma segunda oportunidade depois da morte e muito menos uma espécie de inferno temporário. A pessoa que está no purgatório morreu na amizade de Deus e sua salvação está assegurada, mas ainda necessita da purificação necessária para entrar plenamente na presença dAquele que é absolutamente Santo, como ensina o Catecismo da Igreja Católica (cf. CIC 1030-1032), retomando a doutrina formulada especialmente nos Concílios de Florença e Trento, como ensina São Gregório Magno que certas faltas podem ser purificadas depois desta vida.

São Tomás de Aquino tratou longamente dos sufrágios pelos mortos e ensinou que as orações da Santa Igreja, o Sacrifício do altar e as esmolas podem beneficiar aqueles que estão em purificação. Isso ajuda a compreender por que mandar celebrar uma Santa Missa por um falecido não é apenas uma homenagem à sua memória, mas um grande ato de amor. Quando oferecemos o Santo Sacrifício, rezamos, fazemos penitência ou oferecemos uma indulgência por uma alma, continuamos amando alguém que já não pode praticar essas obras por si mesmo.

É também aqui que encontramos os três estados da Igreja: Igreja militante, padecente e triunfante. O Concílio Vaticano II ensina que alguns discípulos de Cristo ainda peregrinam na terra, outros morreram e estão sendo purificados, enquanto outros já foram glorificados e contemplam Deus. São três condições, mas uma só Igreja. Nós somos a Igreja peregrina ou militante, ainda combatendo o bom combate da fé. As almas em purificação são tradicionalmente chamadas de Igreja padecente. Os santos que já contemplam Deus formam aquilo que chamamos de Igreja triunfante. A morte muda a nossa condição, mas não rompe o Corpo de Cristo.

Por isso professamos a comunhão dos santos, nós rezamos pelas almas do purgatório, os santos no Céu intercedem por nós e todos pertencemos ao mesmo Cristo. A Santa Mãe Igreja ensina que a união entre aqueles que ainda caminham na terra e os que adormeceram na paz de Cristo “de modo nenhum se interrompe”, mas é fortalecida pela comunicação dos bens espirituais. Quando rezamos por nossos pais, avós, amigos ou mesmo por alguém cujo nome já foi esquecido neste mundo, estamos exercendo uma caridade capaz de ultrapassar a própria morte.

A Comemoração dos Fiéis Defuntos, portanto, não é um dia de desespero. Existe tristeza porque sentimos falta daqueles que amamos, mas São Paulo pede que não nos entristeçamos “como os outros, que não têm esperança” (ITs 4,13). Visitamos os túmulos, levamos flores, recordamos histórias e sentimos saudade, mas fazemos algo ainda maior, rezamos. Pedimos a Deus que purifique aqueles que precisam de purificação e os conduza à contemplação de sua face.

E enquanto rezamos por eles, também recordamos que a lâmpada ainda está em nossas mãos. Ainda podemos confessar nossos pecados, reparar nossas faltas, perdoar, pedir perdão, amar melhor e colocar nossa vida em ordem. Para aqueles que partiram, oferecemos nossos sufrágios. Para nós, permanece o chamado de Cristo, ficai preparados.

Vigiai para que, quando o dia chegar, o Senhor vos encontre com as lâmpadas acesas, pois um dia alguém também rezará por vós na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.

Sem Nome

Por onde andarmos que a justiça nos guie. Para que quando falarmos, a verdade saia de dentro de nós. Diante do sofrimento que sejamos alento e nas dificuldades criemos algo que agrade a Ti. Para a qualquer momento elevarmos Teu Nome e assim partilharmos o amor que nos move a sermos ferramentas confiantes da Tua misericórdia. Amém!

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