Movendo-se pelo mundo como católico
Sobre rótulos
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Recentemente um homem que até então eu não conhecia me abordou e numa rápida conversa me convidou para ser intercessor e intérprete do terço dos homens, grupo o qual ele coordena. A minha primeira reação não foi pensar a respeito do convite, foi entender de onde ele tinha tirado a ideia de me convidar para tal missão. 

Sem mistério, a resposta para essa pergunta é relativamente simples e veio rápido, algumas pessoas que sabiam quem eu era sugeriram meu nome, dentre o próprio filho dele que com as palavras do pai, “me via rezando o terço com frequência”. Bem devo aqui dizer que isso não é muito difícil, já que eu rezo o terço em qualquer lugar, dizer que me viu rezando o terço ou com fome no ouvido é o mesmo que dizer que me viu de tênis, porque é quase todos os dias em qualquer lugar (risos). 

Conto isso pelo diálogo que se seguiu quando um segundo homem que acompanhava o primeiro se aproximou, eu perguntei o que exatamente eles esperavam que eu fizesse e eles responderam que desejam que eu rezasse pelo grupo e ajudasse a discernir as ações que o grupo deveria realizar de acordo com a vontade de Deus. Bem, nem precisa dizer que metade da tarefa é relativamente mais fácil do que a outra metade e sinceramente, acarreta uma responsabilidade que eu não queria. Mas como não sou muito fã de ser engolido por uma baleia (se não entendeu a piada leia Jn 2), respondi que iria rezar e meditar a respeito para dar uma resposta. Foi aí que recebi o rótulo.

“Você é um mariano fiel, é um bom nome para isso”. 

Aqueles que me conhecem já devem imaginar o quanto essa afirmação chamou minha atenção e gerou até um certo incomodo, eu prontamente perguntei por que eles achavam que eu era mariano e disse a eles que não me considerava mariano. E a resposta veio junto com uma afirmação. 

“Você é e não sabe, você reza o terço todo dia”. 

Eu sorrir com a interpretação que eles faziam do fato de eu rezar o terço todos os dias e o leve incomodo a respeito foi trocado pela sensação de que aquela conversa havia se tornado uma oportunidade de algo a mais. 

Eu não me sinto confortável com a maioria dos rótulos que muitos católicos adotam na Igreja, embora eu compreenda o porquê deles existirem e sua reconhecida utilidade na evangelização dos fiéis, muitas vezes eu busco evitá-los, pois acabam sendo utilizados de maneira um pouco equivocados e acabam distanciando o fiel da razão original da denominação. 

Aqueles que sabem e sente o chamado de viver uma regra, uma doutrina, uma espiritualidade, em comunidades de vida e tantas outras formas que a diversidade de dons e carismas que o Espírito Santo abundantemente fecunda na Santa Mãe Igreja, são por mim admirados.

Mas quando partimos para os excessos, que infelizmente não são difíceis de encontrar na Igreja, essas denominações são usadas para rotular as pessoas e criar pequenas tribos e grupos que, na maioria das vezes, são desnecessários e muitas vezes prejudiciais por dar a entender que existe uma opção de ser ou não ser, de agir ou não agir, de concordar ou não concordar, para coisas que parecem ser inerentes a uma espiritualidade específica, grupo ou movimento. E claro que isso não existe.

Exemplos atuais disso temos aos montes, de católicos mal catequisados que mesmo estando regularmente na Igreja acreditam que ser contra o aborto é coisa de quem é pró-vida, que vestir-se dignamente para viver a Santa Missa é coisa de quem assume a modéstia, que não ter relações sexuais antes do casamento é coisa de quem escolheu viver a castidade, que a oração em línguas e clamar pelo Espírito Santo é para quem é da RCC e que rezar o Santo Terço é para quem é mariano. Essa lista é enorme, mas acredito que você já tenha conseguido entender onde eu quero chegar, nenhuma dessas coisas é exclusiva de alguma espiritualidade ou movimento especifico, como também, as primeiras três não são opcionais, é obrigação te todo católico.

Por isso que naquele momento eu aproveitei para oferecer a eles uma resposta que pudesse ao mesmo tempo explicar para eles por que não me considerava mariano e abrir caminho para conversamos um pouco mais sobre isso. 

“Eu rezo o Santo Terço todos os dias, mas isso não me faz mariano, assim com eu rezar a liturgia das horas não faz de mim um padre”.

Respondi para eles com um sorriso no rosto e com a abertura que eles me deram ao sorrirem de volta, eu disse a eles a mesma coisa que a muito tempo venho dizendo a Deus em minhas orações. 

“Ainda estou tentando ser apenas católico, espero que baste”.

Estamos conversando até hoje a respeito da missão que eles me convidaram a participar, parece que estamos indo bem, eu venho me esforçando para entender a dinâmica do grupo deles e pequenos detalhes já demonstram que eles estão entendendo a profundidade do que é pertencer a Maria Santíssima e a grandiosidade da Igreja de Cristo, com o tema que eles me pediram para rezar e prover formação para eles.

Você não é católico por ser mariano, você só é mariano porque é católico.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia. 

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