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No domingo, conheça o Pai

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“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,1-12).

5º Domingo da Páscoa | Ano A

A liturgia pascal nos coloca, neste domingo, diante do discurso de despedida. Trata-se de uma condensação teológica da identidade de Cristo e da condição do discípulo. O contexto é de transição, a cruz se aproxima, a ausência visível se anuncia, e o coração dos discípulos se perturba. É nesse cenário que ressoa a primeira afirmação, “não se perturbe o vosso coração” (Jo 14,1a).

A proposta não é negar a perturbação, mas sim enfrentá-la, e nesse momento a resposta de Cristo é teologal, “tendes fé em Deus, tende fé em mim também” (Jo 14,1b). A fé não elimina a crise, mas reordena o seu sentido. Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, interpreta que a fé em Cristo não é paralela à fé em Deus, mas sua explicitação, crer em Cristo é entrar na inteligência do próprio Deus.

Em seguida, Jesus introduz a imagem da casa do Pai, “na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2a). A linguagem utilizada por Cristo é relacional e não espacial. Não se trata de uma topografia celeste, mas de comunhão. As “moradas” indicam a participação diferenciada, mas real, na vida divina. São Gregório Magno, papa e “magno” doutor da Igreja, afirma que essa diversidade não implica desigualdade essencial, mas a manifestação da multiforme graça de Deus segundo a capacidade de cada um.

Cristo não apenas descreve o destino, Ele afirma o meio, “quando eu tiver ido preparar-vos um lugar” (Jo 14,3a). A preparação não é logística e operacional, é uma preparação redentora. O “lugar” é preparado pela cruz, pois é na cruz que a distância entre Deus e o homem é superada. Santo Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus, ensina que Cristo é causa eficiente e exemplar da nossa salvação, Ele abre o caminho e, ao mesmo tempo, se torna o próprio caminho.

A direta objeção de Tomé, “Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?” (Jo 14,5),revela uma dificuldade recorrente em nós, querer conhecer o destino sem reconhecer a mediação. A resposta de Cristo é densa e deve soar para nós como um lembrete, “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6a).

Não se trata de três afirmações independentes, mas de uma unidade. Cristo é o caminho enquanto conduz ao Pai, é a verdade enquanto revela o Pai e é a vida enquanto comunica a própria vida divina. Santo Atanásio de Alexandria, doutor da Igreja e “pai da ortodoxia”, insiste que o Filho, sendo consubstancial ao Pai, não apenas aponta para Deus, mas torna Deus acessível. Fora d’Ele, não há acesso, porque não há mediação adequada.

É por isso que Ele apresenta a consequência de maneira explícita, “ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6b). A afirmação não é exclusivista no sentido sociológico, mas ontológica. Não se trata de restringir, mas de afirmar a estrutura da salvação, toda comunhão com o Pai passa pelo Filho.

Filipe, sedento por aproximar-se ainda mais de Deus, mas ainda sem compreender a dimensão de Cristo, pede, “Senhor, mostra-nos o Pai” (Jo 14,8a). Mas Cristo responde revelando a profundidade da encarnação, “quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,9). Aqui não há mera representação simbólica, mas presença real, por isso São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “boca de ouro” da Igreja, observa que Cristo não diz “eu mostro o Pai”, mas “quem me vê, vê o Pai”, indicando uma unidade que ultrapassa qualquer mediação externa.

Essa unidade fundamenta a missão, “as palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo, mas é o Pai, que, permanecendo em mim, realiza as suas obras” (Jo 14,10b). A ação de Cristo é teândrica: plenamente divina e plenamente humana. Não há separação entre o que Ele diz e o que o Pai realiza.

A partir dessa base, Jesus introduz uma consequência até então nunca vista na relação entre Deus e os Judeus, “quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas” (Jo 14,12). A afirmação não indica superioridade do discípulo sobre Cristo, mas extensão da sua ação. Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, interpreta que essas “obras maiores” dizem respeito à expansão da graça na história, especialmente pela missão da Igreja, que leva o Evangelho a todos os povos.

Assim o 5º Domingo da Páscoa nos coloca, diante de uma relação especial da vida de todo católico, a fé como resposta as perturbações do dia a dia, Cristo como mediação absoluta, e a missão como consequência inevitável.

Por isso somos convidados a crer que Cristo é o caminho e que não é necessário construir rotas autônomas para Deus. Crer que Ele é a verdade e que a realidade não está entregue ao relativismo. Crer que Ele é a vida e que a existência encontra Nele sua plenitude.

Neste ponto do tempo pascal, a Santa Mãe Igreja não apenas celebra a Ressurreição, ela explicita suas consequências. O Ressuscitado não é apenas vencedor da morte, é o mediador permanente, o critério da verdade e a fonte da vida.

Que o nosso coração não permaneça perturbado. Não porque as circunstâncias se resolvem, mas porque o fundamento está estabelecido. Cristo é o caminho. Cristo é a verdade. Cristo é a vida. E fora d’Ele, não há passagem para o Pai.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.

Graças a Deus, aleluia, aleluia!