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No domingo, permaneça sempre com Ele

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“Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor” (Jo 14,15-21).

6º Domingo da Páscoa | Ano A

À medida que o tempo pascal avança, a liturgia nos conduz cada vez mais profundamente ao interior do discurso de despedida de Cristo. O Evangelho deste domingo não apresenta uma exortação moral que vem unida a uma revelação sobre a permanência de Deus no homem. A ausência visível de Cristo se aproxima e por isso Ele anuncia uma presença ainda mais profunda no Espírito Santo.

O autor sagrado apresenta Jesus fazendo uma afirmação que nos aponta a direção de como devemos viver, “se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14,15). Dessa forma fica claro que o amor cristão, não é mera emoção religiosa ou adesão afetiva abstrata, porque ele exige conformação da vontade. Santo Agostinho, bispo e doutor “da graça” da Igreja, afirma que amar a Cristo é viver segundo aquilo que Ele ordena, não existe amor autêntico desvinculado da obediência.

Essa relação entre amor e mandamento é frequentemente mal compreendida pelo mundo moderno, que tende a opor liberdade e norma. Contudo, no Evangelho, o mandamento não aparece como limitação arbitrária, mas como expressão da verdade do próprio homem. Cristo não impõe um caminho externo, Ele revela a estrutura da vida segundo Deus.

Após a afirmação inicial Jesus realiza uma promessa, eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco (Jo 14,16). O termo “defensor” aqui apresentado vem do termo “Paráclito” possui significado e densidade teológica mias ampla, sendo entendido também como consolador, advogado e auxiliador. Esse entendimento mais completo do termo nos mostra que Espírito Santo não substitui Cristo, mas prolonga sua presença na Igreja.

São Basílio Magno, bispo e doutor “Pai dos Pobres” da Igreja, ensina que o Espírito Santo é aquele que conduz o homem à participação na vida divina, iluminando a inteligência, fortalecendo a vontade e configurando interiormente o discípulo a Cristo. Sem o Espírito, a vida cristã reduz-se a exterioridade, mas com Ele, torna-se transformação interior.

Jesus continua falando do Espírito Santo e acrescenta, Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece” (Jo 14,17a). Aqui, é importante compreender que o “mundo” não significa criação material, mas a lógica fechada em si mesma, incapaz de acolher a verdade divina. O Espírito não é apreendido pelos critérios do poder, da técnica ou do prestígio, Ele é conhecido na comunhão.

E é a luz dessa comunhão espiritual que Nosso Senhor realiza mais uma promessa, não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós (Jo 14,18). A Ascensão de Cristo não inaugura abandono, mas uma nova forma de presença. São João Crisóstomo, arcebispo e doutor “boca de ouro” da Igreja, comenta que Cristo retira sua presença visível para que os discípulos amadureçam na fé e aprendam a reconhecê-Lo espiritualmente.

A orfandade espiritual é uma das grandes marcas do homem do nosso tempo, pois mesmo com a abundância de informação, a ausência de sentido predomina, dedicamos muito tempo a multiplicar conexões, mas pouco tempo para edificar comunhão. O Evangelho responde a essa condição com uma presença, o Espírito Santo habita no discípulo.

Mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis (Jo 14,19b), por isso a vida cristã não é mera imitação ética de um mestre do passado, é participação real na vida do Ressuscitado. Santo Atanásio de Alexandria, doutor da Igreja e “pai da ortodoxia”, insiste que o Filho de Deus assumiu a natureza humana para possibilitar ao homem a comunicação da vida divina. A Ressurreição não é apenas um acontecimento externo à humanidade é a inauguração de uma nova condição de existência.

Cristo então revela uma dinâmica de mútua permanência, “vós estareis em mim e eu em vós” (Jo 14,20b), a linguagem é de comunhão ontológica. O cristianismo não consiste apenas em seguir ensinamentos, mas em permanecer em Cristo.

Santo Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus, explica que a graça santificante produz no homem uma participação criada na própria vida de Deus. O Espírito Santo não atua apenas externamente. Ele transforma interiormente a alma, tornando-a capaz de comunhão com a Trindade.

O Evangelho conclui retomando a relação entre amor e obediência, Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama (Jo 14,21a), o amor verdadeiro manifesta-se concretamente. Não basta admiração intelectual por Cristo, é necessária também adesão existencial.

E há ainda uma promessa final, “Eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14,21b). A manifestação de Cristo não é reservada apenas aos grandes eventos extraordinários da história da salvação, ela acontece no dia a dia, no ordinário da intimidade da vida espiritual daquele que permanece fiel.

O 6º Domingo da Páscoa nos prepara para Pentecostes, onde a Santa Mãe Igreja começa a voltar o olhar para a promessa do Espírito e para a vida nova inaugurada pela Ressurreição. O Ressuscitado não apenas venceu a morte, Ele tornou possível a habitação de Deus no homem.

Também nós frequentemente experimentamos a tentação da ausência, como se Deus estivesse distante ou silencioso. O Evangelho deste domingo responde afirmando que a presença divina não desapareceu, pelo contrário, ela se aprofundou e Cristo permanece presente pelo Espírito Santo.

Neste tempo pascal, lembremos sempre que a vida cristã não pode ser reduzida a formalismo religioso ou prática exterior. O Espírito Santo não habita estruturas vazias, mas corações dispostos à comunhão com Cristo.

Que não vivamos como órfãos espirituais. Que o Espírito da Verdade encontre em nós espaço para agir. E que, permanecendo no amor de Cristo, possamos experimentar já agora aquilo que a Ressurreição inaugurou, a vida de Deus comunicada ao homem.

Percebam Deus nos pequenos detalhes.

Graça, Paz e Misericórdia.

Graças a Deus, aleluia, aleluia!