Estaria Paulo VI infinitamente “por fora da realidade?” Ou, talvez – somente talvez – estaria ele falando de uma difícil, mas imutável verdade, para um mundo cegado por sua intemperança? Se você discordou da doutrina da Igreja a respeito de contracepção, acredite-me, posso entender isto muito bem. Na realidade, quase abandonei a Igreja Católica por causa desse seu “detestável ensinamento”. “Afinal – pensava eu – recusar contraceptivos às pessoas é como recusar-lhes pasta de dentes ou até papel higiênico. Trata-se apenas de uma conveniência moderna. Não tenho, acaso, o direito de expressar meu amor à esposa quando quiser, sem me preocupar em ter de criar quinze filhos?”
O Papa Paulo VI estava consciente que seria difícil para o mundo moderno compreender a imoralidade da contracepção. Homens e mulheres modernos tinham perdido de vista a grandeza, a dignidade e a finalidade divina da vida humana (Humanae Vitae). Quando isto acontece, não se vê mais a união sexual corno um “grande mistério” proclamando o amor de Deus à humanidade e prenunciando o paraíso. Em três tempos reduzimos a sexualidade a um processo biológico, sujeito a todos os tipos de manipulação humana. Hoje, devido a este modo de pensar, a maioria dos homens e mulheres não se preocupa com sua fertilidade, talvez menos até que com a cor de seus cabelos.
O sexo é certamente biológico, mas isto é apenas uma perspectiva parcial. Como observou Paulo VI, para se entender o ensino cristão sobre o sexo e a procriação, devemos olhar “além das perspectivas parciais”, precisamos de urna “visão total do homem e de sua vocação” (HV, n.7). Foi isto que João Paulo II se propôs fazer na sua teologia do corpo – dar-nos a “visão total do homem”, de maneira a permitir-nos entender o ensinamento da Igreja sobre a contracepção. De fato, como diz João Paulo II – toda a teologia do corpo pode ser considerada como “um amplo comentário à doutrina contida na encíclica Humanae Vitae” (28.11.1984).
Todas as cinco etapas anteriores nos ajudaram a chegar a este ponto. Se consegui introduzi-lo com êxito na bela visão de João Paulo II sobre o corpo e o sexo, deve ter-lhe ficado bem clara a base lógica da Humanae Vitae. No entanto, alguns importantes questionamentos levantados pela encíclica de Paulo VI ainda permanecem. Que critério especial nos oferece a teologia de João Paulo II para entendermos a Humanae Vitae? Por que a Igreja rejeita a contracepção, mas aceita os métodos naturais de regulação da fertilidade? O que pretende a Igreja dizer com a prática da “paternidade-maternidade responsável?” Seu ensino sobre a contracepção não está impedindo os casais de expressarem mutuamente seu amor?
Antes de entrar diretamente nessas questões, vamos dar uma rápida olhada nalguns versículos-chave do Cântico dos Cânticos e do Livro de Tobias. João Paulo II reflete sobre eles como uma espécie de prefácio à sua explanação da Humanae Vitae. Por isso, eles devem conter elementos capazes de esclarecer ainda mais as questões levantadas acima.
Percebam Deus nos pequenos detalhes.
Graça, Paz e Misericórdia.
Fonte: WEST, C. Teologia do corpo para principiantes: uma introdução básica à revolução sexual por João Paulo II. Madrid: Myrian, 2008.




